Não seria bom, muito MUITO bom (embora improvável e extremamente utópico) se percebessem, todos os lados envolvidos nesse momento importante – do civismo, da política, da vida pública, da democracia – que liberdade de expressão significa liberdade para todos, inclusive para aqueles que DISCORDAM de você?
Se apegar nesse discurso de que a grande mídia é o problema porque tem lá impressa a opinião do político, porque tem lá gravada a linha editorial da casa…
É problema discordar de você?
Se o cacete do comentarista fala merda, se a droga do canal de TV usa ou não logotipo nos carros, se a bosta da emissora de rádio tá errada, se o lixo do jornal tem aquele editorial tendencioso…
Raso demais, não?
A liberdade de expressão é isso, não? Consumir, acreditar, repassar isso, aí é que entra o seu lado do tapa na bunda dessa gostosa que é a liberdade.
E, se alguém, algum movimento, algum motivo, algum estopim consegue mudar esses “grandes diabos da comunicação social”, isso deveria sinalizar o quanto eles estavam errado e todos podem fazer isso, todos podem mudar de lado.
Ótimo.
Você já esteve errado várias vezes na vida, já mudou de lado e de opinião várias vezes na vida.
(E se não mudou e continua sempre com o mesmo ponto de vista sobre tudo, desculpa falar, mas você é uma porta.)
Agora, a mudança deles é oportunista, temporária?
Bom, aí cabe a você julgar.
O que sempre me pareceu temerário é essa simplificação do discurso, é fazer tábula rasa do discurso, desenhar duas coluninhas e tentar enquadrar tudo e todos nelas.
Antes o mundo fosse simples assim; não é, só vai ficar mais complexo e cabe a você ter argumentos suficientes, ter raciocínio crítico, ter informação suficiente para julgar e defender seu ponto de vista.
Não existe liberdade de expressão pela metade, como não existe liberdade política pela metade, como não existe liberdade, pura e simples, pela metade.
De novo, cabe a você julgar: você é o filtro do conteúdo que consome.
Vai ou não assistir aquele canal, assinar aquela revista, ouvir aquela rádio, acessar aquele portal, ler aquele jornal?
Cabe a você escolher.
Vai criticar o discurso, vai discordar, vai expor seu ponto de vista?
Tomara que sim.
Se isso acontecer, se isso for possível, entenda o que é isso.
É a liberdade de expressão, estúpido.
(E não se ofenda, esse “estúpido” é só aquele recurso emprestado frequentemente da onipresente referência de “The economy, stupid“. Tô te ofendendo não, a gente nem se conhece ainda.)








