Unknown Pleasures

20 de maio de 2013 às 12:47

Quando a criação – visual e musical – é tão boa, tão absurdamente boa, algumas décadas não fazem nenhuma diferença no seu alcance.

Peter Saville, o cara por trás da capa, não teria como saber qual seria o tamanho do culto que criaria na época, ainda que imaginasse o quão bom era o disco.

E é claro que em 4 minutos você não conta um décimo da história mas sempre vale a pena tocar no assunto.

E ver como o assunto ainda toca o mundo hoje.

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(Ambas as fotos estavam aqui.)

 

Os EUA, os americanos, o Brasil e nós.

2 de maio de 2013 às 13:19

Carter

Você pode ter muitas restrições aos Estados Unidos.

Todo mundo gosta de ter um pé atrás com os Estado Unidos.

É bacana falar mal dos Estados Unidos.

Mas, claro, só até a página 2, aquela onde entram o iPhone, a Coca e o Facebook.

Não vamos entrar no mérito do Jon Stewart e seu The Daily Show fazerem parte do que existe de melhor no humor que os americanos fazem para televisão; nem no fato de que o Jon Stewart e o The Daily Show também são das fontes mais sérias da crítica política que se produz por lá.

Mas vamos entrar no mérito dessa entrevista que o ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981) concedeu recentemente no The Daily Show.

Aos 88 anos, esse cidadão ganhador de um Prêmio Nobel entre outras centenas de reconhecimentos, é um dos maiores expoentes na tentativa de erradicar doenças em países extremamente pobres – não é o caso dos EUA, não esqueça -, um dos grandes nomes na batalha pela igualdade de gênero no mundo – muito pior em grande parte desse planeta do que nos EUA, lembre-se – crítico da política de tortura, tendo passado por Haiti, pela África, Vietnã, Coréia do Norte.

Uma única iniciativa do seu Carter Center reduziu de 3.5 milhões para 542 casos de uma das piores doenças nos países em desenvolvimento, rumo a erradicação.

Três milhões e meio viraram 542 casos.

Claro, ele é apenas UM dos ex-presidentes americanos, essa nação que tem que conviver com Bush pai e Bush filho. E Bill Clinton.

Mas entre esses ex-presidentes vivos está Jimmy Carter.

E nós?

Já começa que a coisa mais próxima que temos de um programa no nível do The Daily Show por aqui é… É o torrent para baixar o The Daily Show.

E nós temos o Luiz Inácio fazendo auto-promoção desmedida e faturando, com palestras e textos para o New York Times, uma bica – um abraço para os socialistas, comunistas e revolucionários de quinta categoria aí de plantão.

Nós temos o Fernando Henrique, auto-proclamada a eminência parda de um partido em frangalhos, tentando segurar interesses distintos sob uma mesma bandeira rasgada de uma pretensa social democracia tupiniquim.

Nós temos o Collor, que só por ser o Collor não requer outras explicações.

E nós temos o Sarney, que continua presidente mais do que nunca na república do Amapá.

Você pode ter muitas restrições com os norte-americanos.

Mas um ex-presidente norte-americano, décadas depois do seu mandato, continua fazendo mais pelo mundo do que – provavelmente – fez enquanto era presidente.

E nós?

Unknown Pleasures: Inside Joy Division

5 de março de 2013 às 11:46

JoyDivisionBook

Não sei se ler livros sobre música pode ser considerado algo minimamente sinestésico mas, se for o caso, meu apartamento tá num momento sinéstésico prá diabo.

Não que antes essas biografias, contos, textos, rabiscos e afins não chamassem a atenção, mas o assunto tá numa sequência entre eu e a minha digníssima que é de dar gosto: Se agora estamos em conexões músico-neurológicas e a história de um ícone absuro e incontestável – respectivamente o meu Musicophilia e David Bowie dela – fazem algumas semanas que liamos sobre post punk, a Patti Smith, o Joy Division… E é exatamente esse último que interessa aqui.

Sim, se você gostar tanto de post punk, de rock alternativo, de anos 70, 80 e de Joy Division quanto eu, as chances de que uma obra como essas já comece com a sua simpatia ganha são grandes; e, no caso de Unknown Pleasures, com o passar das páginas, a simpatia pela obra só aumenta.

(Mas claro que não é tudo que raspa no tema que agrada; Touching From A Distance, o livro de memórias da Deborah Curtis, é um que eu nunca consegui passar das primeiras dezenas de páginas; parece que a “aura” de alguém de dentro da banda, neste caso o Peter Hook, faz diferença para como você encara a história toda.)

Prá começo de conversa, um livro em que o name dropping do cara envolve A Certain Ratio, Durutti Column, Cabaret Voltaire, OMD – sejamos sinceros – já ganha uma enormidade de pontos; e quando o autor que fez isso foi parte de duas das mais fundamentais bandas das décadas de 70/80/90 (e não precisaria disso prá ser levado a sério), aí o jogo já está praticamente ganho prá ele.

Não quer dizer que o livro seja perfeito, livre de falhas, mas isso é uma percepção tão pessoal que, de verdade, não sei se vale a pena ser mencionado; de qualquer forma… mencionemos: Um dos aspectos que me parecem exagerados na obra é a infindável lista de locais em que eles tocaram, acompanhados de quem, com a entrada custando 75p.; e, se comigo isso soou excessivo, li um bom número de comentários em que as pessoas pediam mais detalhes dos shows, uma lista mais completa, imagens de cartazes… livro_unknown

Talvez se tivesse lido a versão impressa, realmente, um apêndice de páginas em papel couche com reproduções dos cartazes e mais fotos viesse a calhar; como acabei lendo em versão ebook – não, não quis esperar o livro chegar pelo correio e o ePub dele estava ridículo de tão barato no Kobo – esse preciosismo no design gráfico não fez falta.

(Por outro lado, algo que faz sim falta, mas talvez seja só na versão ebook, é aquela coisa bacana de grifar, rabiscar. Mas pode ser que eu é que não saiba usar esse recurso direito ainda; e esse recurso de grifar não faz falta só nesse título então é uma crítica mais ao aparelho que ao livro.)

E deixando tantas divagações de lado, quanto ao texto em si:

Uma das características que mais chamou a atenção no livro é algo que aproxima a obra de Peter Hook da auto-biografia do Lobão: ler o texto dele parece bastante com uma conversa informal em que o cara está te contando as histórias, em algo que parece ser muito o jeito dele de falar: isso, por si só, deixa a leitura bem fluída e difícil de largar.

Embora você se pegue durante todo o livro percebendo uma ou outra cutucada do Hook nos seus ex-parceiros Bernard Sumner e Stephen Morris, elas soam com um misto de acidez merecida e bobagem adolescente que não deixam transparecer uma pessoa magoada em excesso ou atormentada por isso; se o que aconteceu entre eles no Joy Division e nas encarnações do New Order não terminou exatamente de forma amigável, também não é ponto mais negativo da vida do cara.

(E aí vai uma nota de percepção pessoal: O Bernard sempre me pareceu o mais amargurado e cheio de ressentimento deles todos. Até porque o Stephen não parece nada.)

E, ao contrário dessa adolescência das provocações, os momentos em que você percebe o lado mais cheio de culpa no livro são relacionados a Ian; e não poderia ser muito diferente mesmo.

Hook se põe, inúmeras vezes, como um dos culpados por não perceber o estado em que Ian se encontrava, a gravidade da doença, o desespero explícito em algumas letras e, com tudo isso de lado, continuar em turnê, fazendo shows, viajando.

Recheada de frases impagáveis que só poderiam surgir dessa mistura agridoce de humor, falta de esperança, raiva e superioridade dos britânicos, a obra vale cada centavo – ainda mais quando você paga pouquinho, claro.

(E é no que diz respeito a essas dezenas de citações geniais que o fator ebook atrapalhou e o impresso teria me salvado: nada do que eu grifei para usar aqui ficou salvo. Mas revendo isso, talvez a crítica não seja mesmo ao livro nem ao aparelho, e sim ao leitor aqui. Ops.)

Resumindo? Leia.

E, se aguentar, leia também o livro da Deborah e depois me conta o que tem de bom por lá.

Bowie, 66

10 de janeiro de 2013 às 10:00

Falaram e falaram e falaram tanto do Bowie nesse aniversário do cara (e por ter voltado a produzir, hooray) que nós, fãs incondicionais desse ser humano espetaculoso, até tiramos um peso que estava lá escondido no fundo das nossas preferências muscais.

Ufa!

Claro que um dia o cara vai morrer mas, enquanto estiver com pique, com criatividade, com um pingo de tesão musical, que continue mandando prá gente uma faixa ou um disco, nem que isso demore mais um par de anos.

Rock on.

(Abaixo, um momento que captura toda a fleuma e discrição da pessoa que, flagrada ao ir comprar suas revistinhas, singelamente dá uma dedada ao fotógrafo. Um lorde até na hora do fuck off.)

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Retro Media

5 de dezembro de 2012 às 10:58

We ❤ Retro Media: Vinyl, VHS, Tapes & Film

Okey, okey, eu concordo que a gente adora essa coisa retro/oldschool/vintage toda, acho mesmo que o lance com o vinil é bacana e justificável mas nem tudo merece mesmo voltar.

Tá, os filmes fotográficos tem seu valor como experimentação. Mas é basicamente isso.

Idem para um Super8 ou uma Polaroid.

(Tá aí essa porrada de filtro nostálgico prá mostrar o quanto a gente quer um vintage, ainda que instantâneo.)

Já nas fitas cassetes e nos VHS, aí sim não faz sentido algum.

Além de servir como peças de decoração – sim, eu tenho isso também – ou como… é, basicamente isso, peças de decoração, qual a idéia purista por trás disso?

Gravar um vídeo baixado em bluray prá VHS e assistir na TV velha da vó?

É.

Tá indo um pouco longe demais isso, não?

Pelo menos a gente ainda tem uns itens bacanas prá reviver; não consigo imaginar que, em algumas gerações, as pessoas voltem a usar iPods com esse mesmo interesse.

Jornal da Tarde

31 de outubro de 2012 às 8:40

O Jornal da Tarde foi o primeiro jornal que eu me lembro de receber todo dia em casa – tá bom, quase todo dia, não circulava aos domingos na época – e tenho minhas certezas infundadas que, em grande parte, o hábito da leitura compulsiva que eu tenho hoje é culpa nele.

Depois da assinatura do JT, meus pais também assinaram Folha da Tarde – também extinta – e a Folha de S. Paulo; quando eu fui escolher o que ler, uns sete ou oito anos atrás, assinei o Estadão.

(Dos clássicos paulistanos só me faltou receber em casa o Notícias Populares, mas esse eu preferia ver escondido, quando o segurança do colégio deixava a molecada dar uma olhada no sangue, suor e peitos do NP.)

Lógico que não peguei a fase combativa do JT – já peguei um país um pouco menos censurado – mas as histórias que qualquer estudante de comunicação ouve ou lê vida afora estão repletas de referências as inovações gráficas e editoriais do JT, a coragem das receitas publicadas na época da ditatura, o sangue novo que ele injetou no jornalismo diário paulistano.

Mas quarenta e seis anos são tempo demais e, nesse tempo, a coisa toda mudou demais.

As notícias condensadas, de leitura rápida, foram parar na tela do celular.

A defesa do consumidor foi parar nos sites de reclamações.

A descoberta dos restaurantes escondidos tá em qualquer checkin de conhecidos.

A foto bacana de uma criança chorando a derrota da seleção – o clássico das capas do JT – está em qualquer aplicativo de fotos.

E eu não sei se existe, em alguma outra metrópole do mundo, muitas casas publicadoras que mantenha dois títulos diários que, em última instância, competem por leitores e anunciantes.

Se no lançamento a versão vespertina tinha seu propósito, a existência de dois jornais impressos no mesmo horário, saindo no mesmo horário, pela manhã, nas mesmas regiões, já não se complementavam faz tempo.

A história do JT é linda – sorte a nossa que, como jornalistas, diagramadores, fotógrafos, publicitários, atendentes de call center ou seguranças do prédio, fizemos parte dela – mas, hoje, é exatamente isso.

História.

Prá qualquer um que ainda tenha esse prazer sinestésico no jornalismo impresso – sentir a página do jornal pela manhã, o cheiro do jornal durante o café, as escolhas de fotos e títulos a cada página virada – é sempre triste ver um dos nossos batendo em retirada mas, saudosismos utópicos à parte, tente se lembrar da última vez que você leu um JT.

Tudo tem seu tempo, seu período, sua validade.

Parabéns, JT; a gente não continuou junto mas, na minha memória, você sempre vai ser o meu primeiro amor jornalístico.