Arquitetura

Asterios Polyp

Desde Retalhos, aquela lindeza de obra escrita-e-desenhada do Craig Thompson, que uma graphic novel (dessas que não foram criadas vinte anos atrás) não embasbacava tanto.

Asterios Polyp

E um post qualquer, por maior que pareça, talvez não seja suficiente para descrever o que David Mazzucchelli faz na obra e porque diabos ela embasbaca tanto. (E, por isso, esse texto não vai ser enorme, já que não teria mesmo razão…)

Com um passado que inclui um clássico do Demolidor e um Batman prá lá de elogiado (ao lado  de Frank Miller), uma dezena de passagens pelas capas de outras obras, e ainda ter sido o criador e editor – junto da esposa – da Rubber Blanket, Mazzucchelli já tinha lá seu lugar no fundo da mente nerd dos fãs de HQs.

(HQs, esse negócio que é de outra praia comparado ao que estamos falando que são as graphic novels autorais. Pelo menos na minha cabeça, ok?)

Partindo da ideia de que a obra conta a história da vida de um professor cinquentão, divorciado, que perde tudo e sai sem rumo pelo país, temos lá alguns mínimos indícios de potencial para um road movie clichê – ou uma HQ com cara de road movie clichê – e só.

Sabendo que o roteiro tem pinçadas de filosofia, debates entre duologias sobre os mais diversos assuntos, conceitos psicológicos e afins, teríamos indícios de uma obra arrastada, densa.

Mas o que Mazzucchelli  faz para contar a história de Asterios Polyp – o professor em questão, que é o centro da obra – vai em qualquer direção, menos a dos clichês surrados: Na hora de colocar a história no papel, ele usa minimamente as convenções quadrinísticas estabelecidas como ponto de partida e, daí prá frente, apresenta criações incríveis a cada par de páginas.

Usando mais as extrapolações gráficas do que a escrita para representar/descrever desde as pessoas, suas personalidades, sentimentos e sensações até os ambientes e os acontecimentos, Mazzucchelli nos brinda com coisas como essa:

Asterios Diferencas

E, acredite, ainda que sua formação não inclua tipografia, história da arte ou arquitetura – a disciplina ensinada pela personagem -, durante a leitura da obra, esse tipo de arte descreve perfeitamente cada personagem em questão.

Os traços retos e cortados em que Polyp aparece desenhado nos momentos mais tensos, a forma toda curva em que aparece a (ex)esposa nos flashbacks, o roxo-lilás, resultado (imaginado?) da fusão do azul claro de Polyp e do magenta da esposa, representando os momentos de integração entre eles, os flashbacks nesses tons e o tempo presente em amarelo, os enquadramentos e sequências quase cinematográficos de certos trechos…

E o capítulo à parte nesse embasbacamento que é a tipografia dos diálogos.

Nesse caso, eu não conseguiria colocar nem no maior dos textos o quanto as escolhas tipográficas são fundamentais e o quanto a Cia. das Letras acertou em deixar isso nas mãos de quem sabia perfeitamente o que estava fazendo.

E não só um texto não daria conta de descrever a obra – já avisei -, como um texto que a descreva demais pode estragar muito da experiência e das percepções possíveis então… chega; nem com todas as resenhas da rede é possível explicar como – dentro desse universo das graphic novels - estar com Asterios Polyp nas mãos é segurar um clássico, uma obra prima, um livro definitivo.

Ou, em bem menos palavras do que esse texto – e pelas muito mais renomadas ideias de Scott McCloud:

If you’ve read Asterios Polyp once… Read it again. [...] If you’ve read Asterios Polyp more than once…Okay, now we can talk.

Gênios do nada

“Outro exemplo de um aspecto da cultura brasileira elogiado muito mais do que provavelmente merece é a obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Sei que isso pode soar chocante, porque há um consenso quase universal aqui no Brasil de que Niemeyer é um gênio. Mas, como Nelson Rodrigues costumava dizer, “toda unanimidade é burra”. Deixando de lado a política stalinista de Niemeyer, que é execrável, há uma condtradição fundamental e irreconciliável entre o que ele professa e a obra que produziu. Ele afirma querer uma sociedade baseada em princípios igualitários, mas sua arquitetura, para usar a linguagem do mundo da computação, não é user-friendly. Ao contrário: ela é profundamente elitista e mesmo egoísta, concentrada principalmente em fazer declarações grandiosas e eloquentes por si mesmas, para satisfação de Niemeyer e seus admiradores, mesmo que cause desconforto ou inconveniência ao usuário.”

Larry Rohter, jornalista americano, no capítulo Cultura do livro “Deu no New York Times”.

E aí você abre o jornal e vê isso:

Mas não é o pior, a foto da capa do caderno de Esportes mostra algo ainda mais embaraçoso:

E ainda tem a abertura do texto, dessa vez na Folha:

“Quem chegar a Santos pelo mar, a partir de 2012, verá no monumento projetado pelo gênio da arquitetura a imagem do gênio do futebol.”

Aquela coisa baba-ovo – embora nesse caso a expressão beija-mão faça mais sentido e seja mais óbvia – entre dois enormes ícones do nada na cultura brasileira.

Larry Rohter entende bem mais do que acontece nesse país do que 90% das pessoas que administram ele. Talvez por isso Lula tenha tentado expulsar ele do Brasil.

Casa no Centro


Como se eu ainda precisasse de mais motivos para querer morar no centro…

O bom é que a matéria ainda acaba dando uma inflacionada nos preços. Preferia – sem querer ser injusto, claro – que as pessoas continuassem com bastante medo de morar no centro de São Paulo.

De preferência que também não queiram transformar a região em um polo festivo-cultural onde se juntam manifestações futebolísticas, gays, de reveillon e evangélicas. Continuem na Paulista, por favor.

Biblioteca São Paulo

Tudo bem que ela vai acabar ficando longe, mas eu tento conter a inveja de saber que um projeto como esse não vai estar na porta de casa.

Até porque é muito bem vindo que algo desse porte e com essas pretensões saia do óbvio, saia do centro velho onde tentam enfiar todas as inciativas com acervo, saia da zona sul onde já existem opções culturais em bom número.

Mas esse número, 30.000 livros… Não é pequeno? Não sei se talvez estejamos mal acostumados a ver números em milhões, bilhões, ou ao menos em sete ou oito centenas de milhares, mas uma biblioteca dessas com 30.000 me soou como uma banca de jornal com três revistas e um jornal.

De qualquer forma, com acervo gigante ou reduzido, uma obra com essa cara já vai me fazer pensar em algo mais na zona norte do que o centro de exposições do Anhembi, o sambódromo ou o Campo de Marte.

via.