Kraftwerk @ Sónar SP 2012, dia 1

O Sónar SP, pelo menos na primeira, noite, não facilitou muito pra quem tem esse hábito de falar de eventos por aqui.

Ok, isso talvez só tenha acontecido porque eu não tinha a menor intenção de ver nada nessa noite que não fosse o Kraftwerk, então os outros vários shows passaram despercebidos. Mea culpa.

E não tendo sofrido nenhum problema com a fila e com ingressos, também não dá para criticar nada da organização.

(Tá, a pizza estava fria e a cerveja era Miller. Que tal isso como crítica?)

Então, única e exclusivamente sobre o que interessa: Kraftwerk.

A gente sabe faz tempo que o que está no palco é só 25% da banda original.

Sabe também que não tem música nenhuma nova prá ir lá conhecer.

Sabemos – ou ao menos imaginamos – que 3D ainda é tecnologia recente e não é isso que vai fazer o show deles ser absolutamente diferente da última passagem por aqui no Just A Fest, com o Radiohead.

E ainda tem certeza de que eles são o Kraftwerk e que, sem nenhuma invencionice, o show deles vai ser em pé, parados, estáticos.

Se bem que isso talvez nem todos saibam. Jornalistas do Terra que esperavam ver o Kraftwerk pulando no palco por exemplo:

“Ao longo dos mais de 90 minutos em que estiveram no palco, os integrantes do grupo permaneceram exatamente na mesma posição: estáticos. Nada de braços para cima clamando por animação, de malabarismos ou de sorrisos para a platéia.”

Vai saber, de repente tem um espírito de Planeta Terra no cara… Ou ele curte mesmo é axé e achou Kraftwerk chato.

De todos os modos, quem estava lá para ver os alemães e esperava o que eles sempre entregam não saiu, em nada, decepcionado.

Os efeitos 3D de fato não são geniais, avançadíssimos; E é bom que não o sejam, porque isso não combinaria com o que é Kraftwerk para a música, para a arte.

A cara vintage do que acontecia com os efeitos casava com as músicas sem sobressaltos, complementava sem ofuscar e, no final, ofereciam uma obra a ser lembrada com saudades pelos fãs.

Muito pouco mudou no que acontece durante a apresentação em relação ao último show deles; as projeções pareciam iguais em 90% do tempo ao Just A Fest e as músicas e mesmo a saída deles. Tudo mecanicamente preciso e similar.

Mas olhando os fãs ao redor, sendo um fã e pensando honestamente nisso após o show, a sensação é de que você recebeu exatamente o que esperava.

(E um pensamento final de auto-congratulação condescendente… Duas vezes presente nas quatro passagens dos caras por aqui. Nada mal.)

Church Of Vinyl

Church of Vinyl é um curta de David Culleton, do coletivo NoParking, que explora, segundo o próprio, fé, adoração e coleções de discos.

Nice.

(E sim, os exemplares clássicos do homo criativus ainda estão nessa pegada de coletivo, acredito eu… )

Um lindo dia feio

Liniers, quadrinista porteño dos mais recomendados, dedicado especialmente a todos os jornalistas de rádio e tevê que insistem em falar de dia feio para manhãs cinzas, chuvosas e frias.

Wrong.

Alguém precisa ensinar, sei lá, nas nas escolas de jornalismo talvez, que isso também é juízo de valores  - tsk tsk tsk – e dos mais irritantes, diga-se. E, a menos que eles sejam comentaristas/articulistas/colunistas, devidamente pagos para dar palpites sobre todos os assuntos, deviam imaginar – ao menos – que algumas pessoas preferem esses dias ao calor infernal, ao suor incessante e ao sol escaldante.

(Sim, isso me incomoda faz tempo.)

Pin It

Superhero grunge art

Com desenhos como esses, é claro que a arte de Lora Zombie já está, faz tempo, em dezenas de páginas da rede, inclusive no Fab, site recomendável de desejos consumistas.

(No caso do Fab, estava, porque parece que todas as peças que estavam sendo oferecidas por lá – essa Mulher Maravilha era uma delas – já foram vendidas…)

A semi-nua super-poderosa acima é parte da coleção de pinups dos quadrinhos pintadas por essa russa, que basicamente trabalha com aquarelas, produzindo algo que ele chama de grunge art.

Como artista do século XXI, essa mistura de Michael Zulli e Suicide Girls sabe se vender muito bem pela rede; isso significa que não vai ser nada difícil você fazer uma busca no Google e descobrir tudo sobre ela. Mas se você não tiver tanta curiosidade assim, de apenas uma olhada no processo criativo da moça no vídeo abaixo.

Gainsbourg. Vie héroïque.

A história da vida de Serge Gainsbourg é – ao menos no imaginário de quem conhece um pouco de sua figura pública – tão irreal, tão utópica, tão exagerada que seria difícil transformá-la em um filme convencional.

Um filme convencional, hollywoodiano, talvez caisse na facilidade dos excessos e isso não faz justiça a quem foi Gainsbourg nem ao que o francês colocou no mundo.

Por sorte, Gainsbourg: Vie héroïque não é um filme convencional.

O filme é, na falta de melhor definição, uma fábula da vida heróica do cantor, compositor, ator, autor… Apesar de a tradução para o português ter perdido o subtítulo de Vida Heróica e tê-lo trocado por O homem que amava as mulheres, a idéia original combina muito mais com a vida de um cara feio que levou pra cama Brigitte Bardot, Jane Birkin, Isabelle Adjani, Catherine Deneuve…

Serge Gainsbourg foi um herói de um modo de esbórnia boêmia que só era possível mesmo na França,  só era possível mesmo naquela época.

O tratamento estético dado a obra – baseada em uma graphic novel sobre a vida de Gainsbourg, e isso explica muita coisa – é primoroso. E isso é quase um problema, já que acaba se sobrepondo a história mas, já que estamos pensando mesmo em uma obra de arte, que a vida dele seja retratada em biografias e deixem o cinema carregar em suas cores.

O alter ego de Gainsbourg, presente por quase toda a obra na forma de um grande boneco que exagera as imperfeições de Serge é ponto alto do filme, expondo quase que didaticamente ao espectador as ideias que – possivelmente – brigavam dentro de uma mente que, segundo supõe/conta o filme, só fica quieta quando ele compõe ou pinta.

Mentes barulhentas. Como fazem falta.