Musicophilia, de Oliver Sacks

11 de março de 2013 às 9:00

Essa obra aí já estava chamando a atenção há tempos e o motivo é bastante óbvio: Musicophilia: Tales of Music and the Brain é um título genial para chamar a atenção de qualquer pessoa que tenha aquele 1% extra de interesse pela música.

Bom… eu tenho.

musicophiliaOliver Sacks é um neurologista, biólogo, pesquisador e escritor que dedicou boa parte da vida profissional a entender, estudar e escrever sobre o cérebro e, em especial, sobre a relação entre a música e nossos neurônios; trabalhando em hospitais e casas de repouso para pacientes que sofrem as consequências de um AVC, um infarto ou acidentes que prejudicaram suas percepções do mundo, ele teve acesso direto a evolução das doenças, dos tratamentos, das reações de pacientes e familiares.

Nessa obra, que expande o assunto já tratado em seus livros anteriores, estão dezenas de casos em que ele era o médico, casos relatados por outros médicos ou por parentes que escreveram após lerem um de seus vários textos publicados em revistas e jornais ou seus livros.

O livro começa já no prefácio com uma constatação emprestada de Arthur C. Clarke (parabéns extras ao autor pela referência sci-fi…) em que aliens, chegando na terra, se pegam pensando:

“What an odd thing is to see an entire species – billions of people – playing with, listening to, meaningless tonal patterns, occupied and preoccupied for much of their time by what they call ‘music’.”

E, pensando bem, é isso mesmo: música não é nada além de uma sequência finita de variações sem sentido da compressão do ar, frequências, volumes, distorções.

E isso entrega, já no seu primeiro parágrafo, que a obra é bem diferente da biografia de um músico, a história de uma banda ou uma gravadora: o que Sacks relata é como esses padrões agem na nossa cabeça, alteram nossa percepção de tempo, de espaço, da realidade.

Mais do que simplesmente descobrir como e porque gostamos desses sons, Musicophilia busca terrenos que vão de alucinações musicais, terapia sonora para recuperação de acidentes vasculares cerebrais e como aquelas melodias que achamos grudentas de fato grudam na mente até a relação de compensação entre cegueira e percepção sonora, amnesia, ouvido absoluto e sonhos musicais.

Sim, a obra é densa; muito mais do que eu esperava, inclusive.

Densa e, por vezes, cansativa. A sucessão de casos retratados, as descrições detalhadamente médicas de eventos e tratamentos, de ambientes e pacientes pode, com o tempo, cansar o leitor não-médico da obra – meu caso – mas superado esse obstáculo, é um texto de fôlego invejável na tarefa de tirar o fôlego do leitor.

Eu – admito – me peguei boquiaberto com certas passagens do que a música faz na nossa cabeça inúmeras vezes; deve ter aumentado minha popularidade entre os doidos do metrô paulistano.

Admito também que esperava que a obra fosse muito mais no caminho de uma das frases finais de Sacks:

“The neuroscience of music, in particular, has concentrated almost exclusively on the neural mechanisms by which we perceive pitch, tonal intervals, melody, rhythm, and so on, and, until very recently, has paid little attention to the affective aspects of appreciating music. Yet music calls to both parts of our nature—it is essentially emotional, as it is essentially intellectual.”

Mas talvez a grande frase do livro, na minha cabeça, seja uma citação que Sacks faz do Keats:

“Heard melodies are sweet, but those unheard are sweeter.”

E é basicamente isso.

A música tocada, a música no mundo, é uma coisa; pura física, ondas, compressão, volume, distorção.

Já a música na nossa cabeça – ouvida, lembrada, imaginada – é algo completamente diferente. É, para quem gosta, algo entre o mágico, o transcedental e o indescritível.

E por melhor e mais profunda que seja qualquer obra sobre música, nada pode descrever como cada um de nós, apaixonados pelos sons, reagimos.

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(Como podem perceber, estou quase aprendendo a usar o recurso de anotações do Kobo.)

Últimas Palavras

4 de janeiro de 2013 às 9:00

“Impressionante como coração, pulmões e fígado resistiram: eu teria sido mais saudável se fosse mais doentio.”

Fragmentos, Capítulo 8

(Okey, não é bem uma leitura de férias ou um livro pé na areia. Mas até aí, quem disse que eu sou uma pessoa pé na areia?)

Ao longo dos anos, meu contato com o que Hitchens escreveu foi com artigos e não com livros; uma hora isso iria ter que mudar e – porque não? – começar com o último livro que ele escreveu?

Para quem está acostumado com o tipo de raciocínio, com as ideias, com certa intransigência e – eu não sou fã de descrições sinestésicas mas… -  palavras amargas e azedas, não é um livro que apresente nada novo, claro, mas encerra bem uma carreira como a de Hitchens.

Hitchens

São poucas as páginas, assim como foram poucos os meses entre o diagnóstico do câncer e a morte dele, mas dessa forma, em poucas páginas, acompanhar um cérebro desses, consciente de seu final, é uma oportunidade a ser aproveitada.

Entre dezenas de outras pequenas qualidades, o livro tem um dos melhores primeiros capítulos que eu lí em muito tempo – agradecimentos também ao tradutor – e, se te faltar vontade de ler ele todo, os dois primeiros parágrafos te fazem, caso você tenha um pingo de humanidade, ficar com um nó na garganta.

Ainda que com sua torta opção conservadora no fim da vida – e isso é positivo ou negativo de acordo com suas convicções, mas não invalida a obra e, sim, pode ser compreendido -, Hitchens foi um dos grandes, grandes, GRANDES polemistas-pensadores dos nossos tempos: sorte de quem o teve por perto, comentando os temas que nos são tão cotidianos.

Nessas 70 ou 80 páginas, o que se percebe de Hitchens é alguém em certa quantia assustado – não podia ser diferente – mas apenas dentro do que faz sentido a sua figura; um autor que reafirma suas convicções, um ser humano cheio de erros e acertos a serem sublinhados.

Durante suas páginas, Últimas Palavras vai ficando mais calmo, mais ciente de seu final, mais entregue; por isso que, quando Hitchens apresenta, logo no segundo capítulo, algo como:

“Quem mais acha que Christopher Hitchens ter câncer de garganta terminal [sic] foi a vingança de Deus por ele usar sua voz para brasfemá-Lo? [...] Ele vai se contorcer de agonia e dor e se reduzir a nada, e depois ter uma horrível morte agonizante, e ENTÃO vem a parte realmente divertida, quando ele é mandado para sempre para o FOGO DO INFERNO para ser torturado e queimado.”

ao que responde com, lindamente, com:

“Minha garganta até o momento não cancerosa – apresso-me a garantir a meu correspondente cristão acima – não é de modo algum o único órgão por meio do qual blasfemei.”

devemos aproveitar, sim, como os últimos rounds de um pensador combativo, um ateu sem desvios em sua falta de crenças, um autor a ser lembrado.

 O epílogo, curto, é de Carol Blue, esposa de Hitchens; dessas poucas páginas se tira algo curto que é a cara de dele:

Todas as vezes Christopher tem a última palavra.”

 Então que seja assim: também dos fragmentos que ficaram incompletos e encerram o livro:

 “Se eu me converter, é porque é melhor que morra um crente do que um ateu.”

Continuum

12 de dezembro de 2012 às 15:50

Homem casado que se vê solteiro por um fim de semana é assim: Festa até altas horas da madrugada, bebedeiras, remorso…

E eu, que me vi nessa situação, assumo que o fim de semana em questão foi assim:

Continuum

Incomoda essa mania de fazerem fotos com os cabelos da protagonista esvoaçantes. Prá que isso?

Em uma só sentada – hmmm, falei que eu tava solteiro, né? – daquelas de dar gosto (okey, eu paro) assisti a primeira temporada inteira de Continuum, série canadense de sci-fi exibida por lá no canal Showcase.

(Ei, você, que mora no Canadá: Esse showcase é uma versão local de HBO/Showtime, canal premium? Grato pela informação.)

Como você talvez saiba, uma infinidade de séries norte-americanas acabam sendo gravadas no Canadá por conta de custos; aquela linda fazenda do Oregon ou aquela avenida de Washington podem, muito bem, estar em Ontario ou Quebec, tá?

E foi fazendo séries e séries para a TV americana que eu imagino que os canadenses aprenderam a dominar essa linha de produção e criar um produto com cara tão americana. (E isso não é crítica não, claro.)

É lógico que uma penca de atores americanos aparecem, assim como você já deve ter visto vários canadenses nas suas séries americanas favoritas. C.G.B. Spender, por exemplo, não só é canadense como – hey! – aparece também em Continuum; mas não ver sempre as mesmas caras conhecidas – como acontece quando a gente vai atrás de uma série francesa, argentina ou algo do gênero – cria um distanciamento artístico que, ao menos para mim, faz bem.

Divagações a parte, a série toda se passa lá nos anos 2077, envolve viagens no tempo, tecnologias utópicas, revoluções, conspirações, aquelas conversas de você no futuro com seu eu – ou não, não posso revelar – no passado… Tudo que deixa seu lado nerd feliz por não ter que gastar tempo vendo uma comédia romântica.

De forma competente e bem amarrada, a série entrega um sci-fi que não fica sem pé nem cabeça – o que acontece com certa frequência, convenhamos -, que não exagera no didatismo ao mesmo tempo que não exige que você tenha altos conhecimentos de física teórica e não decepciona quem quer um episódio para passar o tempo nem quem quer se “prender” à série.

Assistindo a temporada toda de uma só vez – talvez – você também perceba um ou outro deslize mínimo, daqueles que não se percebe tão facilmente em episódios vistos a cada semana, mas não é nada que comprometa o desempenho da série e a história.

Como todo bom sci-fi investigativo, de mistérios e reviravoltas, não dá prá falar de Continuum sem entregar pontos da história então… Vai atrás. Não vai ser a série favorita da sua vida – ao menos não pela primeira temporada – mas te deixa bem entretido®.

Até onde eu sei, a série estréia no começo do ano nos Estados Unidos e já está sendo exibida na Inglaterra; logo mais por aqui então, já que a negada que programa canal pra América Latina tem essa dificuldade monstruosa em ir atrás de séries que não saiam da cabeça do J.J. Abrams ou não sejam produzidas pelo Jerry Bruckheimer.

Shirts of Sci-Fi, Vols. 1 e 2

12 de novembro de 2012 às 14:17

Baseadas nas clássicas camisetas ”John & Paul & Ringo & George” que a Experimental Jet Set criou – e todo o planeta se apoderou – surgem essas duas belezinhas aí, criadas pela minha metade mais nerd.

Não que isso vá render nenhum dinheiro, claro, mas se você quiser passar lá no site da Uzinga e curtir, dar uma nota bacana e tals, pelo menos eles fazem a camiseta.

E isso seria fundamental para os nerds de sci-fi do mundo ficarem um pouco mais bem vestidos.

 

PD: Nevasca

9 de novembro de 2012 às 9:00

Eu já acabei o livro faz um tempo mas, sinceramente, estava com dificuldades em imaginar como começar a falar de Nevasca.

Mesmo.

(Blogging block, a evolução do writers block. Que beleza são os novos tempos.)

Mas aí, já lendo outro livro, veio aquele estalo não-genial que acontece as vezes: Renascentista. Leonardo Da Vinci.

É isso!

Faz tempo que eu carrego essa admiração apaixonada pelo Léo – sim, tanto tempo que eu já sou íntimo do cara – e do que ele escolheu para a vida.

(Meu primeiro esforço publicador nessas interwebs da vida, inclusive, foi um site – constuído em FRONTPAGE, acredite – sobre Da Vinci. Sim, faz tempo.)

E essa admiração foi, em parte, transferida para esse trabalho do Neal Stephenson.

O que o Stephenson criou nessa obra só pode ter saído de uma cabeça com tendências renascentistas, razoavelmente influenciadas por excessos tecnológicos, pitadas de steampunk, desvios de comportamento e interesses no que existe de pior na cabeça do ser humano.

E tudo isso é elogio.

A mistura de religião, tecnologia, história, ciência, criptografia, matemática, sexo, linguística, distopia e mais um bocado de coisas é, prá minha cabeça, um sinal e tanto dessa tendência à mentalidade renascentista, que pregava tanto essa capacidade do homem de ser conhecedor de praticamente tudo, de várias áreas do conhecimento.

Basicamente um Da Vinci, um pouco interessado em tudo, um pouco mestre em todas as áreas do conhecimento de sua época.

A história toda, descamba, em pouquissimos momentos, para um excesso descritivo até que justificável – nem todo mundo tem que entender co-relações de personagens históricos bíblicos ou o sistema binário, por exemplo – mas, fora isso, suas quase quinhentas páginas passam com a tranquilidade dos grandes, grandes livros.

Escolhido pela Time como um dos 100 maiores romances americanos escritos desde 1923, a história de um mundo basicamente controlado por corporações gigantes, onde franquias-estado tem muito mais poder do que qualquer governo não fica devendo nada a realidade em que estamos, onde empresas tem teóricos PIBs superiores a dezenas de nações.

“Stephenson is that rare—no, unique—thing, both a virtuosic literary stylist and a consummate observer of a brave new world where information flows freely between humans and computers, to the point where the two are no longer easily distinguishable.”
Lev Grossman, Time, 2005

Passada em partes na vida “real”, um bom tanto da história também se desenvolve em um mundo paralelo, virtual, onde as pessoas tem sua segunda existência que, aparentemente, é muito mais interessante do que a vida real em um planeta beirando o caos.

Parece familiar?

Pois é. Second Life rodando com esteróides seria uma boa definição desse metaverso criado em Nevasca.

(Que, aliás, é um nome ruim mas ao menos é uma tradução feial do título original – Snow Crash. Imagina que em portugal eles leram “Samurai: Nome de Código”.)

É difícil dizer mais sobre o livro sem ser superficial ou se aprofundar demais e tornar isso aqui em um resumo então imagine que toda a ação se passa entre uma garota de delivery de documentos – uma FedEx, talvez – de quinze anos, um samurai hacker entregador de pizza, a máfia italiana, imigrantes ilegais em grandes navios vagando pelo mundo e uma busca por um vírus digital que afeta a vida real.

Só isso.

Renascentista, eu falei.

Vale cada página, sim, mas não é prá qualquer um não.

Na realidade, eu odeio tanta realidade

13 de julho de 2012 às 13:33

Em algum momento um bom tanto de anos atrás, instalaram a finada Multicanal lá em casa; depois do choque inicial daqueles infinitos vinte ou trinta canais – coisa prá diabo, prá quem tinha logo meia dúzia de opções abertas – comecei a memorizar os números dos canais que, de fato, interessavam.

O Cartoon Netwoork tinha dois canais – SAP não era tão standard ainda, entenda… – e eu usei um tanto disso prá ajudar a aprender inglês; a TNT não esticava um filme de 75 minutos para preencher três horas de programação com intervalos a cada três minutos; Warner e Sony tinham um bocado de séries desconhecidas – esses tempos pré-torrent chegam a ser mágicos, não? – e, como tudo isso ficava lá em canais próximos, estavam no menu de todo dia.

Mas se tinha um canal que eu era apaixonado, era o Discovery.

Meio fascinado por história antiga, ciência, tecnologia, investigações médicas e nerdices afins, aquilo consumia um tempão do meu dia dedicado a televisão; Uma exploração no Egito antigo aqui, uma novidade tecnológica alí, pitadas de arquitetura, física, mecânica…

Era meu primeiro contato com a categoria “Como eu não sabia disso?”, que me acompanha até hoje e se aplica a um bocado de coisas, de novidades musicais, literárias, gastronômicas e tudo mais que você pode imaginar.

Okey, eles repetiam um tanto a programação mas isso entra na cabeça depois que você entende um princípio básico da TV paga – segmentação + disponibilidade de horário – e percebe que ela não segue o padrão da aberta.

Tudo bem, era só decorar quando apareciam as novidades e nenhum problema.

Com o desenvolvimento do nosso mercado de pay tv, chegaram os outros canais de família da Discovery, chegou NatGeo, chegou History, Infinito…

Uau, que maravilha. Por um tempo, eu admito, deixei muito de lado meu primeiro vício – a leitura – por conta dessa enormidade de documentários.

Mas em algum momento que eu não consigo me lembrar, o Egito foi trocado pelo dia a dia de uma loja de tatuagens.

As fábricas de automóveis e de processadores deram lugar ao dia a dia de pessoas que fazem enormes bolos e decoram casas que estão caindo aos pedaços.

DNA, buracos negros e teoria das cordas deram lugar a uma família que fabrica e vende armas, outra família que tem uma loja de penhores e uma outra família cigana que vai casar sua filha no fim do mundo do interior da Inglaterra.

Em que momento a nossa cretinice coletiva disse que era mais bacana ver a vida de um cidadão qualquer que tatua o traseiro de uma mulher do que entender o significado da evolução das espécies?

Existe nisso um pequeno porém com pessoas que visitam fábricas, restaurantes, museus, florestas: Não é a forma mais original nem a mais educativa de apresentar nada, mas No Reservations, Food Tech, Ciudades Y Copas tem sua graça.

Pode ser a mesma pessoa, mas eu entendo o porque de um programa em que alguém te guia em lugares que você – dificilmente – vai entrar.

Mas as mesmas pessoas, toda semana, fazendo bolos, tatuando peitos, vendendo quinquilharias, montando motos e brigando – lógico, esse pessoal briga uma média de 40 vezes por bloco, pelos mais variados motivos -, uma temporada depois de outra… Porque?

Quanto um restaurador de casas suburbanas ou uma decoradora de apartamentos de luxo tem prá te mostrar em uma, duas, três, SEIS temporadas?

Claro que o pedaço reality da coisa toda pode ficar bem pior quando caimos para os realities de confinamento e provas físicas absurdas, mas quão espetacular é a realidade de um bando de funcionários de uma loja dispostos a reformar um carro?

Saudades do tempo em que você ligava nesses canais e dava de cara com uma entrevista com o Stephen Hawkins aqui e uma hora entendendo os trens de alta velocidade ali e, entre esses dois programas, não tinha passado horas e horas no sofá, acompanhando o “sofrimento”, a “batalha”, as “vitórias” dessa “realidade” alheia tão super-editada para nosso prazer sádico-voyeuristíco.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 02 de maio de 2012