Killing Bono

Seu top 3 de assuntos prediletos é música, cinema e literatura e, de repente, você encontra um filme, baseado em um livro sobre uma banda de rock e…

Não, não é que essa obra tenha sido garimpada em sebos, encontrada em um rolo de super 8 no sótão ou pirateada em VHS. “Encontrar” talvez não seja a forma mais honesta de falar sobre  Killing Bono.

O filme foi bem divulgado no lançamento, tem um elenco de estrelas do cinema independente britânico e dificilmente seria ignorado por qualquer pessoa que já tenha ouvido Unforgettable Fire ou War (para citar apenas os discos excelentes da banda), assistido Misfits (por conta da presença de Robert Sheehan) ou frequente os sites da NME ou Spin.

“Encontrar” faz sentido apenas se você entender que o filme ja teve sua première há bastante tempo, estava em casa há meses e só agora foi assistido.

O roteiro é baseado em Killing Bono: I Was Bono’s Doppelganger, livro de Neil McCornick que conta como o autor, seu irmão e alguns amigos tiveram a (má)sorte de serem uma banda irlandesa – precisamente de Dublin – entre o final dos anos 70 e o início da década de 80.

O momento era de novas bandas, um pop rock pra encher estádios mas… Qual a demanda no mundo para bandas irlandesas em 79/80?

Uma. Exatamente uma.

E esse foi o problema deles. O lugar foi ocupado pela monstruosidade do sucesso do U2, deixando os irmãos McCornick muito atrás de Bono Vox.

O filme tem cenas geniais, referências a cultura pop precisas – outras nem tanto -, uma trilha sonora muito bem montada e, apesar de excessos na atuação de quase todos – teatralizadas demais – consegue retratar a ideia de montar uma banda, tentar o sucesso, quebrar a cara e começar de novo, sempre com a desvantagem de ser comparado a um dos maiores grupos que o showbiz já criou.

O autor do livro – e rockstar frustrado – atualmente é editor de música do The Independent e, pelo que esse texto indica, não gostou muito do que viu nem de como se viu nas telas. Já Bono Vox, pelo que consta, não apenas gostou como foi o autor da sugestão do título Killing Bono.

Independente das percepções de ambos ou do quanto o filme é, de fato, fiel ao que se passou naqueles anos, Killing Bono é cinema descompromissado, de risadas garantidas, que vale ser assistido mais de uma vez.

Não, não é um 24 Hour Party People. Mas nem o U2 e nem Bono conseguiriam mesmo competir com o período em que a Madchester de Joy Division, New Order e Stone Roses era o centro do mundo e o big bang do universo musical explodia dentro do Haçienda.

Sherlock

Sempre foi um atestado de qualidade – meu atestado de qualidade pessoal, entregue de acordo com os meus princípios indiscutíveis – sentir um misto de raiva/desprezo/repulsa por uma personagem qualquer em um filme ou seriado.

É o tipo de coisa que não acontece com frequência e, quando acontece, por algum motivo, me deixa com um pouco de vergonha.

Sim, vergonha, porque eu sempre achei – continuo achando – extremamente idiota ver como se discute a vida das personagens de séries e novelas como se fossem realidade.

Mas algumas vezes o trabalho de um ator é tão espetacular, o casamento personagem + artista dá tão certo que, admito, me dão raiva.

Sim, eu me peguei com raiva do Nathan que Robert Sheehan interpretava em Misfits.

(Em minha defesa, pelo menos não comentava com ninguém as atitudes de Nathan. Talvez por falta de platéia que assista a série, mas ainda assim…)

Em Sherlock isso acontece novamente. E, estranhamente, não é com o próprio.

Não que Holmes não tenha todos os pontos para ser uma personagem odiada mas, para qualquer pessoa que tenha lido seus livros desde sempre, que continue lendo os originais, que leia as adaptações, que leia spin-offs… Você ESPERA isso de Holmes. Estranho mesmo seria fazer dele um investigador qualquer.

(E, nesse caso, já temos a obra de Guy Ritchie, que se encarregou de deixar a obra de Doyle o mais rasa possível. Ainda assim, pensado como cinema para pipoca, é uma boa adaptacão.)

No caso da série da BBC, a personagem que desperta a atenção, que mexe com a imaginação é um Moriarty psicopata, de caras e trejeitos fantásticos, diabólico, afetado. E genial: Como se não bastasse o timing das piadas, as adaptações das histórias e junções de contos em um só episódios, a série consegue utilizar de forma excepcional as poucas aparições do clássico arquirival de Holmes.

Não que isso signifique que Watson sirva apenas de coadjuvante mediano, que o Mycroft  de Mark Gatiss não seja pontualmente obscuro ou algo do genero: só significa que as escolhas de Holmes e Moriarty foram acertadas, que a mão de roteiristas, diretores e atores esteve acertadíssima e não dá para competir com isso.

Como se isso não fosse o suficiente, as intervenções gráficas, os filtros, os cortes e a trilha são de uma qualidade rara nas últimas produções para a televisão.

Pena é ver que, agora que estão em domínio público, as obras de Conan Doyle podem ser estragadas por qualquer um: assim com já fizeram com Life On Mars e Forbrydelsen, chegou a vez das emissoras americanas re-lerem Sherlock Holmes, agora vivendo em NY.

É o preço que se paga por criar um dos mais espetaculares detetives de todos os tempos. A perenidade da personagem expôs Holmes e Watson a esses tipos de desvios.

Que venha então a series 3 de Sherlock.

Page One: Inside The New York Times

Ainda que você não trabalhe em um jornal – ou trabalhe em um, mas fora da redação, com é o meu caso – são enormes as chances de que você tenha, pelo menos, um respeito, uma admiração ao peso que tem o New York Times. (Ou a idéia romanceada do NYT, ainda não sei o que pesa mais…)

Por algum motivo, essa empresa deixou de ser um ícone apenas para seu segmento e se tornou uma marca global em inúmeras frente. A escolha das fontes, a diagramação das páginas, tudo leva você a lembrar instantaneamente do NYT.

E isso é prá lá de merecido; só é assim hoje porque editores, donos, jornalistas e entregadores passaram décadas e décadas construindo um dos mais respeitados nomes do jornalismo internacional. E, se hoje tem um HuffPo por aí dando trabalho aos donos das velhas rotativas, pense bem se você conseguiria falar de um blog – por melhor que seja – da mesma forma que solta o New York Times em uma frase, seja na Suécia, na Venezuela ou no Uzbequistão.

Page One: Inside The New York Times não é um documentário sobre como se faz jornal nos anos 00 ou como se fazia jornal nos anos 1940 ou a história de um único veículo ao longo dos anos. Page One é a história de como se faz o New York Times em 2011. Ponto.

Os criadores do documentário ainda se permitem voltar no tempo, passear rapidamente sobre as glórias do Times e de outros jornais, os que continuam e os que já desistiram, mas essencialmente retratam o que é, hoje, fazer este jornal diário.

E a escolha de acompanhar alguém como David Carr, que escreve no próprio jornal sobre o próprio meio, parece ter sido o melhor dos cenários possíveis. Com altos e baixos, sem muito medo de falar o que está pensando, a história de um jornalista de mídias com passado de pai solteiro e viciado combina muito com o momento que o jornalismo impresso e a mídia toda, de microblogs a editoras, atravessa.

Não responde nenhuma pergunta, não quer prever o futuro e, por isso mesmo, vale cada segundo.

Smoke-free Casablanca

Devido às pressões cada vez maiores pelo politicamente correto, por um mundo chato e sem diversões, por músicas adequadas e limpas e filmes que não influenciem de forma negativa as crianças, já chegaram a cogitar a possibilidade de editar digitalmente desenhos animados da nossa infância para, simplesmente, remover o cigarro de algumas cenas.

O que seria do Pica Pau sem seus episódios alcolizados? Ou do Pernalonga sem provocar dor e sofrimento – de forma sádica, preferivelmente – no Patolino?

E os clássicos, como Tom & Jerry usando certas substâncias manipuladas em casa e virando monstros de olhos vermelhos ou hiper-acelerados?

Um tributo a isso então. Casablanca re-editado para excluir todas as cenas em que Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains e amigos aparecem fumando: