Gainsbourg. Vie héroïque.

A história da vida de Serge Gainsbourg é – ao menos no imaginário de quem conhece um pouco de sua figura pública – tão irreal, tão utópica, tão exagerada que seria difícil transformá-la em um filme convencional.

Um filme convencional, hollywoodiano, talvez caisse na facilidade dos excessos e isso não faz justiça a quem foi Gainsbourg nem ao que o francês colocou no mundo.

Por sorte, Gainsbourg: Vie héroïque não é um filme convencional.

O filme é, na falta de melhor definição, uma fábula da vida heróica do cantor, compositor, ator, autor… Apesar de a tradução para o português ter perdido o subtítulo de Vida Heróica e tê-lo trocado por O homem que amava as mulheres, a idéia original combina muito mais com a vida de um cara feio que levou pra cama Brigitte Bardot, Jane Birkin, Isabelle Adjani, Catherine Deneuve…

Serge Gainsbourg foi um herói de um modo de esbórnia boêmia que só era possível mesmo na França,  só era possível mesmo naquela época.

O tratamento estético dado a obra – baseada em uma graphic novel sobre a vida de Gainsbourg, e isso explica muita coisa – é primoroso. E isso é quase um problema, já que acaba se sobrepondo a história mas, já que estamos pensando mesmo em uma obra de arte, que a vida dele seja retratada em biografias e deixem o cinema carregar em suas cores.

O alter ego de Gainsbourg, presente por quase toda a obra na forma de um grande boneco que exagera as imperfeições de Serge é ponto alto do filme, expondo quase que didaticamente ao espectador as ideias que – possivelmente – brigavam dentro de uma mente que, segundo supõe/conta o filme, só fica quieta quando ele compõe ou pinta.

Mentes barulhentas. Como fazem falta.

Killing Bono

Seu top 3 de assuntos prediletos é música, cinema e literatura e, de repente, você encontra um filme, baseado em um livro sobre uma banda de rock e…

Não, não é que essa obra tenha sido garimpada em sebos, encontrada em um rolo de super 8 no sótão ou pirateada em VHS. “Encontrar” talvez não seja a forma mais honesta de falar sobre  Killing Bono.

O filme foi bem divulgado no lançamento, tem um elenco de estrelas do cinema independente britânico e dificilmente seria ignorado por qualquer pessoa que já tenha ouvido Unforgettable Fire ou War (para citar apenas os discos excelentes da banda), assistido Misfits (por conta da presença de Robert Sheehan) ou frequente os sites da NME ou Spin.

“Encontrar” faz sentido apenas se você entender que o filme ja teve sua première há bastante tempo, estava em casa há meses e só agora foi assistido.

O roteiro é baseado em Killing Bono: I Was Bono’s Doppelganger, livro de Neil McCornick que conta como o autor, seu irmão e alguns amigos tiveram a (má)sorte de serem uma banda irlandesa – precisamente de Dublin – entre o final dos anos 70 e o início da década de 80.

O momento era de novas bandas, um pop rock pra encher estádios mas… Qual a demanda no mundo para bandas irlandesas em 79/80?

Uma. Exatamente uma.

E esse foi o problema deles. O lugar foi ocupado pela monstruosidade do sucesso do U2, deixando os irmãos McCornick muito atrás de Bono Vox.

O filme tem cenas geniais, referências a cultura pop precisas – outras nem tanto -, uma trilha sonora muito bem montada e, apesar de excessos na atuação de quase todos – teatralizadas demais – consegue retratar a ideia de montar uma banda, tentar o sucesso, quebrar a cara e começar de novo, sempre com a desvantagem de ser comparado a um dos maiores grupos que o showbiz já criou.

O autor do livro – e rockstar frustrado – atualmente é editor de música do The Independent e, pelo que esse texto indica, não gostou muito do que viu nem de como se viu nas telas. Já Bono Vox, pelo que consta, não apenas gostou como foi o autor da sugestão do título Killing Bono.

Independente das percepções de ambos ou do quanto o filme é, de fato, fiel ao que se passou naqueles anos, Killing Bono é cinema descompromissado, de risadas garantidas, que vale ser assistido mais de uma vez.

Não, não é um 24 Hour Party People. Mas nem o U2 e nem Bono conseguiriam mesmo competir com o período em que a Madchester de Joy Division, New Order e Stone Roses era o centro do mundo e o big bang do universo musical explodia dentro do Haçienda.

Sherlock

Sempre foi um atestado de qualidade – meu atestado de qualidade pessoal, entregue de acordo com os meus princípios indiscutíveis – sentir um misto de raiva/desprezo/repulsa por uma personagem qualquer em um filme ou seriado.

É o tipo de coisa que não acontece com frequência e, quando acontece, por algum motivo, me deixa com um pouco de vergonha.

Sim, vergonha, porque eu sempre achei – continuo achando – extremamente idiota ver como se discute a vida das personagens de séries e novelas como se fossem realidade.

Mas algumas vezes o trabalho de um ator é tão espetacular, o casamento personagem + artista dá tão certo que, admito, me dão raiva.

Sim, eu me peguei com raiva do Nathan que Robert Sheehan interpretava em Misfits.

(Em minha defesa, pelo menos não comentava com ninguém as atitudes de Nathan. Talvez por falta de platéia que assista a série, mas ainda assim…)

Em Sherlock isso acontece novamente. E, estranhamente, não é com o próprio.

Não que Holmes não tenha todos os pontos para ser uma personagem odiada mas, para qualquer pessoa que tenha lido seus livros desde sempre, que continue lendo os originais, que leia as adaptações, que leia spin-offs… Você ESPERA isso de Holmes. Estranho mesmo seria fazer dele um investigador qualquer.

(E, nesse caso, já temos a obra de Guy Ritchie, que se encarregou de deixar a obra de Doyle o mais rasa possível. Ainda assim, pensado como cinema para pipoca, é uma boa adaptacão.)

No caso da série da BBC, a personagem que desperta a atenção, que mexe com a imaginação é um Moriarty psicopata, de caras e trejeitos fantásticos, diabólico, afetado. E genial: Como se não bastasse o timing das piadas, as adaptações das histórias e junções de contos em um só episódios, a série consegue utilizar de forma excepcional as poucas aparições do clássico arquirival de Holmes.

Não que isso signifique que Watson sirva apenas de coadjuvante mediano, que o Mycroft  de Mark Gatiss não seja pontualmente obscuro ou algo do genero: só significa que as escolhas de Holmes e Moriarty foram acertadas, que a mão de roteiristas, diretores e atores esteve acertadíssima e não dá para competir com isso.

Como se isso não fosse o suficiente, as intervenções gráficas, os filtros, os cortes e a trilha são de uma qualidade rara nas últimas produções para a televisão.

Pena é ver que, agora que estão em domínio público, as obras de Conan Doyle podem ser estragadas por qualquer um: assim com já fizeram com Life On Mars e Forbrydelsen, chegou a vez das emissoras americanas re-lerem Sherlock Holmes, agora vivendo em NY.

É o preço que se paga por criar um dos mais espetaculares detetives de todos os tempos. A perenidade da personagem expôs Holmes e Watson a esses tipos de desvios.

Que venha então a series 3 de Sherlock.

Texto republicado na TV Magazine em 10 de abril de 2012


Quem quer SOPA?

 

Cardápio do dia?

SOPA.

Até você não aguentar mais. E depois… Mais SOPA.

Ou então você pode fazer alguma coisa e tentar evitar que empurrem isso garganta abaixo pelo mundo afora.

#StopSOPA

Cinema alternativo

Em um mundo paralelo – talvez isso seja influência de Fringe, nunca se sabe… – 2001: Uma Odisséia no Espaço foi feito por Fritz Lang, O Quinto Elemento tinha no elenco Sean Connery e Frank Zappa estrelava em O Grande Lebowski.

Não menos interessante do que tudo isso, Jean Luc Godard dirigiria Anthony Hopkins e Michael Cane em Trainspotting.

Que tal?