Dawkins e o “design inteligente”

Uma longa citação alheia, só porque faz tempo que isso não ocorre por aqui e porque eu ainda estou – sim, o livro é trabalhoso – lendo essa obra:

“Ainda há muito trabalho a fazer, é claro, e tenho certeza de que ele será feito.

Esse trabalho jamais seria feito se os cientistas ficassem satisfeitos com um padräo preguiçoso como o estimulado pela “teoria do design inteligente”. Esta é a mensagem que um “teórico” imaginário do design inteligente poderia transmitir aos cientistas:

“Se vocês não entendem como uma coisa funciona, não tem problema: simplesmente desistam e digam que Deus a criou.

Vocês não sabem como o impulso nervoso funciona? Tudo bem! Não entendem como as lembranças säo depositadas no cérebro? Excelente! A fotossíntese é um processo desconcertantemente complexo? Maravilha! Por favor não saiam trabalhando em cima do problema, apenas desistam e apelem a Deus.

Caro cientista, não estude seus mistérios. Traga seus misterios a nós, pois podemos usá-los. Não desperdice a ignorância preciosa pesquisando por ai. Precisamos dessas gloriosas lacunas para o último refúgio de Deus”.

Santo Agostinho disse de forma bem clara: “Existe outra forma de tentaçäo, ainda mais cheia de perigo. É a doença da curiosidade. É ela que nos leva a tentar descobrir os segredos da natureza, segredos que estão além de nossa compreensäo, que nada nos podem dar e que nenhum homem deveria querer descobrir” (citado em Freeman, 2002).”

Richard Dawkins, em Deus, Um delírio.

Pois é. Essa coisa de educação, cultura, raciocínio independente… Isso é um perigo.

Ou, como resume muito bem uma daquelas imagens (citando o próprio Dawkins, lógico) que aparecem pela rede e o tumblr faz o favor de nos apresentar:

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Um lindo dia feio

Liniers, quadrinista porteño dos mais recomendados, dedicado especialmente a todos os jornalistas de rádio e tevê que insistem em falar de dia feio para manhãs cinzas, chuvosas e frias.

Wrong.

Alguém precisa ensinar, sei lá, nas nas escolas de jornalismo talvez, que isso também é juízo de valores  - tsk tsk tsk – e dos mais irritantes, diga-se. E, a menos que eles sejam comentaristas/articulistas/colunistas, devidamente pagos para dar palpites sobre todos os assuntos, deviam imaginar – ao menos – que algumas pessoas preferem esses dias ao calor infernal, ao suor incessante e ao sol escaldante.

(Sim, isso me incomoda faz tempo.)

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Not Dead & Not For Sale

Lá nos anos 90, o número de pessoas que tinham uma boa coleção de camisas de flanela e encontravam nas letras desesperadas e desesperançadas do grunge a melhor tradução de sua angústia adolescente era enorme.

Não não, era realmente enorme. Era gigantesco.

Era, de longe, o maior fenômeno da cultura, do cinema, da música, do comportamento jovem na época.

Para essas pessoas de 13, 16, 19 ou 22 anos, o grunge era o caminho, a verdade e a vida.

E, se até hoje, a palavra evoca automaticamente Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains e Soundgarden – as duas primeiras com mais força, lógico – tendo vivido e ouvido essa época é certo que você não passou batido, também, pelo Stone Temple Pilots.

Para contar o que foi sobreviver a esses anos em uma banda como o STP, Scott Weiland, o vocalista-e-pedra-fundamental do grupo, lançou no meio do ano passado Not Dead & Not For Sale, uma das biografias de leitura mais rápida da minha vida.

Sem tentar esconder muito o que aconteceu desde o início pequeno da banda, as brigas, as drogas e as prisões – até porque todo fã da música 90s conhece em detalhes as passagens de Weiland com brigas, drogas e prisões – o relato, de capítulos curtos e prá lá de interessantes, começa com uma família em vias de implosão e termina com um artista tentando se achar novamente.

Primeiro dos cinco webisodes sobre o livro que Weiland colocou no Youtube. Estão todos aqui.

Contando a própria história, dando palpites em outros nomes da cena e cutucando sem a menor dó os então-ex-amigos e agora, depois da volta do SPT, novamente amigos, o livro produz frases geniais que ficam ecoando na mente mesmo após a leitura.

É uma história densa, mas que não chega a virar uma leitura pesada; ainda assim, é impossível passar por páginas e páginas de sexo, estupro, heroína, alcoolismo, roubos e prisões e sair intacto.

Por sorte, logo após ter lido o livro no ano passado o Stone Temple Pilots apareceu por aqui, renascido e surpreendentemente bem, para tocar no SWU: Não, eu não poderia ter pedido um finale melhor para a obra.

Ainda que esse show não vá acontecer novamente, isso não atrapalha em nada – é claro -, essa que é uma daquelas obras que dá para recomendar sem medo de errar para quem gosta dessa cena, para quem viveu essa década e chegou até aqui.

Não existe uma edição nacional da obra, nem cheguei a ouvir falar em editoras interessadas mas, se um dia valeu a pena gastar seu inglês com algo, esse dia pode ter chegado.

Crash the Queen

“J. G. Ballard, cujos livros incluem Crash e O Império do Sol, disse que dispensou uma homenagem por sua produção literária em 2003. “A coisa toda é uma ilógica encenação”, disse uma vez ao Sunday Times. “Milhares de medalhas são dadas em nome de um império inexistente. Isso nos faz motivo de piadas.”

Londres diz quem quem esnobou a rainha“, no Estadão.

O Último Verão Europeu

“Há uma tendência a pensar que a gente dos movimentos revolucionários clandestinos é de esquerda. Mas os terroristas ocupam frequentemente um espaço-tempo próprio: às vezes, eles não olham para frente, mas para trás. Aspiram restaurar reinos que a muito se tornaram pó. Aliam-se sob bandeiras a muito tempo esquecidas. Dão atenção cuidadosa a profetas que pregaram para gente de uma era pretérita.”

David Fromkin, historiador norte-americano, autor de “O Último Verão Europeu – Quem Começou a Grande Guerra de 1914?

Não parece ser muito necessário comentar que isso se aplica a muito mais do que apenas os terroristas…