“I hate Illinois Nazis”

Ainda no que diz respeito a todo o mau humor que foi devidamente explicitado no texto anterior, que fique explicado, hoje, a todos os projetos de mediocridade cômica que nos atormentam:

John Belushi, essa pessoa abaixo, se não tivesse morrido a trinta anos atrás, estaria completando hoje 63 anos.

Trinta anos depois, nenhum de vocês todos conseguem chegar nem perto.

(via filmfun)

Do humor inteligente e da graça babaca

Disseram, e eu acredito, que alguém lá do elenco do CQC aproveitou a passagem da Hillary Clinton por aqui para – com muita graça, sutileza e abusando do humor inteligente – oferecer um charuto para a Secretária de Estado dos E.U.A., que estava aqui em visita oficial.

Visita oficial. Relações internacionais. Palácio do Itamaraty.

O ator – porque aqueles seres NÃO são repórteres, lembrem-se disso – que estava lá gritou para a Hillary, atrapalhou o trabalho de emissoras – brasileiras e estrangeiras – que estavam cobrindo profissionalmente um evento sério.

Capisce?

Quer fazer graça, faz no hotel de um artista. Faz na praia com um ator decadente. Faz na zona ou na parada gay, usando tão bem aquilo que o humor brasileiro sabe usar para ridicularizar e constranger as minorias…

Será mesmo que, em algum momento, eles realmente acharam isso genial durante uma reunião de produção do programa? (Supondo, é lógico, que aquele tipo de programa seja minimamente produzido no quesito conteúdo).

Na minha perspectiva terceiro-mundista, subdesenvolvida e colonizada isso é tão engraçado quanto oferecerem um tapa-sexo de folha de bananeira para a Dilma durante uma passagem dela por Washington.

Sério que esse é o expoente máximo do humor ácido, da sátira política brasileira?

Sério Tas? Quando é que você deixou de ser o ponto de referência do programa que era no Saca-Rolha, entrevistando todos os tipos possíveis ao lado do Lobão e da Mariana Weickert?

Eu sei, você já assumiu que cria uma persona na tela, que não é aquilo. Okey, todos temos dezenas de personas que vestimos o dia todo mas… Tudo é tão comercializável assim?

Pelo jeito sim…

Além de tudo, vão lá mexer com alguém que não faz a menor ideia de quem diabos são vocês. É sério, a audiência de vocês é alta, vocês tem muitos patrocinadores mas a Band não é transmitida na Casa Branca, no Pentágono…

Acreditem, a Hillary não assiste vocês. Nem o Obama.

Quando foi que essas pessoas equalizaram no mínimo possível o humor para competir na mediocridade com o Pânico?

Eu admito que não assisto o programa e isso já indica que não é meu tipo de conteúdo predileto… Mas sim, já assisti.

E ele prometia mesmo ser inovador. Tinha chances para dar um respiro no humor mas… Ainda que sendo um dos cord cutters dessa cidade, nada me faz ficar na frente da TV para algo como o CQC.

Que me desculpe o Dave Mustaine pela adaptação tosca, mas não consegui pensar em nada melhor: Shit sells, but who’s buying it? Aparentemente, centenas de milhares de pessoas e patrocinadores, domingos e segundas, todas as semanas. Ainda mais que, agora, que nem precisam trocar de canal.

Mas, citando mais uma vez uma tuitada da mesma pessoa, sobre esse assunto, a defesa vai ser sempre a mesma:

Ah, é humor. Perdão. Humor pode, né?Humor pode tudo. Humor não deve nada a ng. Humor pode até não ser engraçado. Pode até ser não humor.

Parabéns a todos os envolvidos, dos dois lados da tela.

E que Seinfeld, Monty Python, The Office, Futurama, Coupling, My Name Is Earl e afins continuem com reprises ad infinitum, e que as cenas do esquete do Fábio Renato sejam mantidas na rede para não me esquecer de que, ainda assim, se faz humor para TV.

Black Books e o humor dos ingleses

A indicação veio de longe. Precisamente do meio de Minnesota. E como eu confio em quem tem bom gosto musical, fui atrás dessa pérola britânica da incorreção social que só podia mesmo ter saído lá do fim dos anos 90.

Black Books lembra, no principio, as comédias que o Steven Moffat criou.

(Para quem não conhece, Steven Moffat é quase um J.J. Abrams da TV inglesa. O cara tá envolvido em Sherlock, Coupling, Doctor Who, Jekyll e outras várias produções de sucesso nos domínios da rainha.)

Mas já nos primeiros minutos dá para perceber que a pegada de Black Books é diferente.

Se o humor de Coupling é acessível para (quase) todos, Black Books parece exigir que você, telespectador, tenha uma carga de mau humor, sarcasmo e ironia muito acima da média.

A série toda se baseia na vida de três personagens: Bernard Black, dono de uma livraria, Manny, funcionário nessa livraria, e Fran, amiga de Black.

Black – interpretado por Dylan Moran, criador da série – não está nem um pouco interessado em vender livros. A cena clássica da série é composta dele, sentado entre cigarros e garrafas de vinho e absinto, lendo e afugentando clientes.

Aliás esse parece ser o real motivo dele ter a loja: o dono da Black Books demonstra um prazer todo especial em afugentar seus clientes, se negar a vender livros e, em uma das melhores cenas da primeira temporada, pagar para que o cliente levasse os livros embora apenas para que ele não tivesse o trabalho de vendê-los.

Como toda sitcom que se preze, os episódios tem cenas curtas e histórias fechadas e independentes, mas acompanhar a série faz diferença para “educar” os sentidos quanto ao humor (ou a falta de humor) que Black e Fran apresentam em relação a tudo.

Enquanto ambos parecem querer fugir do mundo – e são nessas ocasiões que aparecem as melhores cenas – Manny, o empregado da livraria, é o mais-que-necessário contraponto a todo protagonista de comédia.

Manny se incomoda com a falta de higiene do lugar, a bagunça dos livros, o descontrole das finanças, o mau humor de Black.

Mas isso tudo acima não consegue – nem de longe – descrever o ambiente da série ou as situações que surgem ao longo de cada episódio.

A série durou três temporadas, quase um padrão para as curtas séries britânicas, e não sei se eles mantém o fôlego nas próximas duas… Mas a julgar pelo que está escrito por aí, a série foi tirada do ar no seu auge.

Mas sobraram, ao menos, 18 episódios para a posteridade.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 29 de março de 2012

Killing Bono

Seu top 3 de assuntos prediletos é música, cinema e literatura e, de repente, você encontra um filme, baseado em um livro sobre uma banda de rock e…

Não, não é que essa obra tenha sido garimpada em sebos, encontrada em um rolo de super 8 no sótão ou pirateada em VHS. “Encontrar” talvez não seja a forma mais honesta de falar sobre  Killing Bono.

O filme foi bem divulgado no lançamento, tem um elenco de estrelas do cinema independente britânico e dificilmente seria ignorado por qualquer pessoa que já tenha ouvido Unforgettable Fire ou War (para citar apenas os discos excelentes da banda), assistido Misfits (por conta da presença de Robert Sheehan) ou frequente os sites da NME ou Spin.

“Encontrar” faz sentido apenas se você entender que o filme ja teve sua première há bastante tempo, estava em casa há meses e só agora foi assistido.

O roteiro é baseado em Killing Bono: I Was Bono’s Doppelganger, livro de Neil McCornick que conta como o autor, seu irmão e alguns amigos tiveram a (má)sorte de serem uma banda irlandesa – precisamente de Dublin – entre o final dos anos 70 e o início da década de 80.

O momento era de novas bandas, um pop rock pra encher estádios mas… Qual a demanda no mundo para bandas irlandesas em 79/80?

Uma. Exatamente uma.

E esse foi o problema deles. O lugar foi ocupado pela monstruosidade do sucesso do U2, deixando os irmãos McCornick muito atrás de Bono Vox.

O filme tem cenas geniais, referências a cultura pop precisas – outras nem tanto -, uma trilha sonora muito bem montada e, apesar de excessos na atuação de quase todos – teatralizadas demais – consegue retratar a ideia de montar uma banda, tentar o sucesso, quebrar a cara e começar de novo, sempre com a desvantagem de ser comparado a um dos maiores grupos que o showbiz já criou.

O autor do livro – e rockstar frustrado – atualmente é editor de música do The Independent e, pelo que esse texto indica, não gostou muito do que viu nem de como se viu nas telas. Já Bono Vox, pelo que consta, não apenas gostou como foi o autor da sugestão do título Killing Bono.

Independente das percepções de ambos ou do quanto o filme é, de fato, fiel ao que se passou naqueles anos, Killing Bono é cinema descompromissado, de risadas garantidas, que vale ser assistido mais de uma vez.

Não, não é um 24 Hour Party People. Mas nem o U2 e nem Bono conseguiriam mesmo competir com o período em que a Madchester de Joy Division, New Order e Stone Roses era o centro do mundo e o big bang do universo musical explodia dentro do Haçienda.