Bom dia por quê?

20 de fevereiro de 2013 às 18:54

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Porque, porque, porque?

Sério. Porque?

Vocês são revistas, jornais, editoras, canais de TV. Vocês não dão bom dia.

Eu não dou bom dia pro cacete do jornal na porta de casa de manhã, prá TV quando ligo…

Ainda que o cara dê um boa noite no jornal, eu não respondo.

Então não me fala bom dia cacete.

Sim, eu sei, você é social. Você é de duas mãos. Você “ouve” o leitor/telespectador/ouvinte.

Mentira.

Bobagem.

Ouve nada.

VOCÊ não é nem um VOCÊ, uma pessoa.

O manual do celular não dá bom dia.

O texto da caixa de entrega dos livros que a gente compra na rede não dão bom dia.

Então para de dar bom dia.

Para de dar boa noite.

Senão acontece essas merdas, de pessoas respondendo o bom dia do jornal, da TV, da fabricante de suco de cajú, da distribuidora de vibradores.

Não.

Tá errado.

Para.

Isso não é jeito de “aproximar” sua marca das pessoas, de ser “amigo”, de ser “sociável”, de ser “próximo”, “acessível”.

Não é.

Só é idiota.

Para.

Obrigado.

C-Scape

21 de novembro de 2012 às 10:37

Às vezes você tem a sorte de pegar um saldão de livros qualquer por aí.

Algumas dessas vezes um livro importado sai por 10 reais e você que nunca ouviu falar do livro nem do autor acha que vale a aposta.

E esse foi o caso do C-Scape.

Claro que aquela linha com “Conteúdo. Consumidor. Curadoria. Convergência” na capa ajudou a chamar a atenção mas, ainda assim, foi uma daquelas compras no escuro.

E se pagou. (Fica a dica: Livros SEMPRE merecem ser comprados, o que não significa que TODOS mereçam ser comprados. Entendeu?)

O autor Larry Kramer trabalhou no Washington Post, USA Today – essa reinventada atual do diário, abusando do visual social media no impresso, é culpa dele -, foi primeiro presidente da CBS Digital, fundou o MarketWatch e fez mais coisas do que a gente pode imaginar que um jornalista-publisher-editor-afins possa fazer.

E nessas duzentas e poucas páginas o cara abre o jogo e conta como ele e outros profissionais mudaram a forma de fazer negócios quando entenderam algo que – agora – é quase óbvio, quer você tenha ou não lido o livro, mas é feito por poucas empresas e bem feito por ainda menos companhias.

A proposta básica se resume em entender que, não importa o que diabos sua empresa crie, transforme e comercialize, você – a empresa, no caso – é uma provedora de conteúdo.

Nada demais, certo?

Então porque 99,9% das empresas – inclusive centenas delas que sobrevivem do negócio de mídia, conteúdo, informação – não fazem isso?

Não fazem porque não entenderam, de fato, as mídias sociais, o papel da curadoria e – mais grave de tudo – não fazem a menor ideia de que o que seu consumidor espera mudou.

Ao se comportarem como curadores em um mundo onde toda a informação é ou vai, eventualmente, ficar livre, e garantir a preferencia baseados na qualidade dessa curadoria, as empresas tem muito – mas MUITO – mais chances de escaparem do buraco negro da hipercompetitividade com contrabandos chineses – caso de produtos “físicos” – ou da agilidade e da gratuidade de informações incompletas (mas livres) que circulam pela rede.

É isso, e é muito mais que isso.

Enquanto lia o livro, a quantidade de vezes que eu fiz aquela cara de “Lógico!” foi impressionante. E já falei prá alguns desses meus parceiros de trabalho na comunicação que eles deveriam ler esse livro mas, independente de qual seja seu ramo, eu aposto que você também ia aproveitar bem a leitura.

 

Jornal da Tarde

31 de outubro de 2012 às 8:40

O Jornal da Tarde foi o primeiro jornal que eu me lembro de receber todo dia em casa – tá bom, quase todo dia, não circulava aos domingos na época – e tenho minhas certezas infundadas que, em grande parte, o hábito da leitura compulsiva que eu tenho hoje é culpa nele.

Depois da assinatura do JT, meus pais também assinaram Folha da Tarde – também extinta – e a Folha de S. Paulo; quando eu fui escolher o que ler, uns sete ou oito anos atrás, assinei o Estadão.

(Dos clássicos paulistanos só me faltou receber em casa o Notícias Populares, mas esse eu preferia ver escondido, quando o segurança do colégio deixava a molecada dar uma olhada no sangue, suor e peitos do NP.)

Lógico que não peguei a fase combativa do JT – já peguei um país um pouco menos censurado – mas as histórias que qualquer estudante de comunicação ouve ou lê vida afora estão repletas de referências as inovações gráficas e editoriais do JT, a coragem das receitas publicadas na época da ditatura, o sangue novo que ele injetou no jornalismo diário paulistano.

Mas quarenta e seis anos são tempo demais e, nesse tempo, a coisa toda mudou demais.

As notícias condensadas, de leitura rápida, foram parar na tela do celular.

A defesa do consumidor foi parar nos sites de reclamações.

A descoberta dos restaurantes escondidos tá em qualquer checkin de conhecidos.

A foto bacana de uma criança chorando a derrota da seleção – o clássico das capas do JT – está em qualquer aplicativo de fotos.

E eu não sei se existe, em alguma outra metrópole do mundo, muitas casas publicadoras que mantenha dois títulos diários que, em última instância, competem por leitores e anunciantes.

Se no lançamento a versão vespertina tinha seu propósito, a existência de dois jornais impressos no mesmo horário, saindo no mesmo horário, pela manhã, nas mesmas regiões, já não se complementavam faz tempo.

A história do JT é linda – sorte a nossa que, como jornalistas, diagramadores, fotógrafos, publicitários, atendentes de call center ou seguranças do prédio, fizemos parte dela – mas, hoje, é exatamente isso.

História.

Prá qualquer um que ainda tenha esse prazer sinestésico no jornalismo impresso – sentir a página do jornal pela manhã, o cheiro do jornal durante o café, as escolhas de fotos e títulos a cada página virada – é sempre triste ver um dos nossos batendo em retirada mas, saudosismos utópicos à parte, tente se lembrar da última vez que você leu um JT.

Tudo tem seu tempo, seu período, sua validade.

Parabéns, JT; a gente não continuou junto mas, na minha memória, você sempre vai ser o meu primeiro amor jornalístico.

Réquiem for an e-reader

7 de outubro de 2012 às 16:52

Era uma vez um simpático, compacto, (quase) leve e (meio) prático e-reader devidamente contrabandeado de algum lugado do meio de Las Vegas para essas terras brasileiras – as vezes tão quentes quanto o deserto de caça-níqueis de Nevada.

Como o sistema do pessoal da B&N não aceitava que eu fizesse muita coisa com ele aqui no Brasil – mas pelo menos eu já sabia disso antes, não foi aquela decepção pós-consumo – o nook virou um grande depósito de textos baixados ao redor da internet.

Aquele monte de texto de sete, doze, vinte páginas virava um grande PDF para ser lido longe do computador, em uma tela que não cansava.

Dezenas de ensaios curtos em PDF não precisaram ser impressos em folhas que iam para o lixo.

Alguns poucos livros velhos que alguma boa alma digitalizou e eu nunca encontrei ficaram lá dentro, guardado naqueles poucos gigas de memória.

A performance do aparelhinho deixava a desejar na velocidade, okey, mas aquilo não foi feito prá ser um tablet ou um smartphone então até fazia sentido.

Não, esse aparelho não foi, nem de longe, a melhor compra que eu fiz na vida – esses riscos de ser early adopter sempre existem – mas ainda assim se pagou fácil.

Mas ele chegou ao final de sua existência.

Finito.

Caput.

Adeus, pobre nook. Eu prometo que vou tomar mais cuidado da tela do próximo.

(Ei, Livraria Cultura, cade o Kobo que vocês vão lançar hein?)

São Paulo, 2012

2 de outubro de 2012 às 23:01

Tem esse texto aqui ó, lá nos blogs da Folha:

Entre outras partes que servem pra pensar – cada um escolhe seu best of – temos:

Corta para a pobre São Paulo. Chororô nas redes sociais pela iminente vitória de Celso Russomano. “Não conheço ninguém que vote em Russomano”, resmungam os mais incrédulos. “É o novo voto consumidor”, lamentam intelectuais petistas.

ou ainda
No Brasil, a distância entre sala e cozinha ainda é enorme e a pequena classe alta ilustrada não sabe aonde estão os eleitores de Russomano. Basta uma visita à portaria do prédio, ao quarto de empregada, à secretária, à vendedora da loja mais simples, da padaria, o frentista, o cobrador do estacionamento. Essas pessoas têm mil motivos para achar que PT e PSDB são quase iguais. 
Mas o que dá um soco na cara mesmo é:
Petistas e tucanos continuam mais empenhados em destruir uns aos outros que em pensar na cidade do presente e do futuro. Uma terceira via, por mais oportunista e peso-pena que seja, acabou se formando. Ao se recusarem a fazer qualquer autocrítica, tabu entre os militantes, adotam o mesmo discurso de seita religiosa que se espalha à direita e à esquerda no Brasil. Quem não concorda ou critica, é “fascista” ou “comunista”, duas das palavras mais gastas do vocabulário político nacional.

Chupemos todos, otários que somos, nas eternas revoluções do sofá, nas confortáveis passeatas via redes sociais.

É foda pensar no Russomano prefeito? É.

Mais foda é chegar no fim desse texto, pensar “Caralho” e se achar – e achar a todos ao seu redor – uns bostas que reclamam tomando Heineken gelada, chorando ingresso de 900 paus, com o smartphone moderno na mão e não fazendo a mais puta ideia de quanto é mesmo que isso garante de comida praquela moça que limpa sua casa?

Eles vão eleger o Russomano. E não estão errados.

E você? Você que se foda.

Você vindo dar palpite babaca a cada quatro anos sem passar uma semana entre cada eleição lendo um único texto sobre a adminstração pública da sua cidade, do seu estado, do seu país, defendendo divisões babacas de direita e esquerda que não fazem sentido desde mil novecentos e putamerda, achando que teu PT ou teu PSDB fazem diferença… Você que se foda.

Você, eu, todos nós merecemos isso aí.

(É mal educado mas é de coração. Beijo!)

Do humor inteligente e da graça babaca

19 de abril de 2012 às 17:51

Disseram, e eu acredito, que alguém lá do elenco do CQC aproveitou a passagem da Hillary Clinton por aqui para – com muita graça, sutileza e abusando do humor inteligente – oferecer um charuto para a Secretária de Estado dos E.U.A., que estava aqui em visita oficial.

Visita oficial. Relações internacionais. Palácio do Itamaraty.

O ator – porque aqueles seres NÃO são repórteres, lembrem-se disso – que estava lá gritou para a Hillary, atrapalhou o trabalho de emissoras – brasileiras e estrangeiras – que estavam cobrindo profissionalmente um evento sério.

Capisce?

Quer fazer graça, faz no hotel de um artista. Faz na praia com um ator decadente. Faz na zona ou na parada gay, usando tão bem aquilo que o humor brasileiro sabe usar para ridicularizar e constranger as minorias…

Será mesmo que, em algum momento, eles realmente acharam isso genial durante uma reunião de produção do programa? (Supondo, é lógico, que aquele tipo de programa seja minimamente produzido no quesito conteúdo).

Na minha perspectiva terceiro-mundista, subdesenvolvida e colonizada isso é tão engraçado quanto oferecerem um tapa-sexo de folha de bananeira para a Dilma durante uma passagem dela por Washington.

Sério que esse é o expoente máximo do humor ácido, da sátira política brasileira?

Sério Tas? Quando é que você deixou de ser o ponto de referência do programa que era no Saca-Rolha, entrevistando todos os tipos possíveis ao lado do Lobão e da Mariana Weickert?

Eu sei, você já assumiu que cria uma persona na tela, que não é aquilo. Okey, todos temos dezenas de personas que vestimos o dia todo mas… Tudo é tão comercializável assim?

Pelo jeito sim…

Além de tudo, vão lá mexer com alguém que não faz a menor ideia de quem diabos são vocês. É sério, a audiência de vocês é alta, vocês tem muitos patrocinadores mas a Band não é transmitida na Casa Branca, no Pentágono…

Acreditem, a Hillary não assiste vocês. Nem o Obama.

Quando foi que essas pessoas equalizaram no mínimo possível o humor para competir na mediocridade com o Pânico?

Eu admito que não assisto o programa e isso já indica que não é meu tipo de conteúdo predileto… Mas sim, já assisti.

E ele prometia mesmo ser inovador. Tinha chances para dar um respiro no humor mas… Ainda que sendo um dos cord cutters dessa cidade, nada me faz ficar na frente da TV para algo como o CQC.

Que me desculpe o Dave Mustaine pela adaptação tosca, mas não consegui pensar em nada melhor: Shit sells, but who’s buying it? Aparentemente, centenas de milhares de pessoas e patrocinadores, domingos e segundas, todas as semanas. Ainda mais que, agora, que nem precisam trocar de canal.

Mas, citando mais uma vez uma tuitada da mesma pessoa, sobre esse assunto, a defesa vai ser sempre a mesma:

Ah, é humor. Perdão. Humor pode, né?Humor pode tudo. Humor não deve nada a ng. Humor pode até não ser engraçado. Pode até ser não humor.

Parabéns a todos os envolvidos, dos dois lados da tela.

E que Seinfeld, Monty Python, The Office, Futurama, Coupling, My Name Is Earl e afins continuem com reprises ad infinitum, e que as cenas do esquete do Fábio Renato sejam mantidas na rede para não me esquecer de que, ainda assim, se faz humor para TV.