
Disseram, e eu acredito, que alguém lá do elenco do CQC aproveitou a passagem da Hillary Clinton por aqui para – com muita graça, sutileza e abusando do humor inteligente – oferecer um charuto para a Secretária de Estado dos E.U.A., que estava aqui em visita oficial.
Visita oficial. Relações internacionais. Palácio do Itamaraty.
O ator – porque aqueles seres NÃO são repórteres, lembrem-se disso – que estava lá gritou para a Hillary, atrapalhou o trabalho de emissoras – brasileiras e estrangeiras – que estavam cobrindo profissionalmente um evento sério.
Capisce?
Quer fazer graça, faz no hotel de um artista. Faz na praia com um ator decadente. Faz na zona ou na parada gay, usando tão bem aquilo que o humor brasileiro sabe usar para ridicularizar e constranger as minorias…
Será mesmo que, em algum momento, eles realmente acharam isso genial durante uma reunião de produção do programa? (Supondo, é lógico, que aquele tipo de programa seja minimamente produzido no quesito conteúdo).
Na minha perspectiva terceiro-mundista, subdesenvolvida e colonizada isso é tão engraçado quanto oferecerem um tapa-sexo de folha de bananeira para a Dilma durante uma passagem dela por Washington.
Sério que esse é o expoente máximo do humor ácido, da sátira política brasileira?
Sério Tas? Quando é que você deixou de ser o ponto de referência do programa que era no Saca-Rolha, entrevistando todos os tipos possíveis ao lado do Lobão e da Mariana Weickert?
Eu sei, você já assumiu que cria uma persona na tela, que não é aquilo. Okey, todos temos dezenas de personas que vestimos o dia todo mas… Tudo é tão comercializável assim?
Pelo jeito sim…
Além de tudo, vão lá mexer com alguém que não faz a menor ideia de quem diabos são vocês. É sério, a audiência de vocês é alta, vocês tem muitos patrocinadores mas a Band não é transmitida na Casa Branca, no Pentágono…
Acreditem, a Hillary não assiste vocês. Nem o Obama.
Quando foi que essas pessoas equalizaram no mínimo possível o humor para competir na mediocridade com o Pânico?
Eu admito que não assisto o programa e isso já indica que não é meu tipo de conteúdo predileto… Mas sim, já assisti.
E ele prometia mesmo ser inovador. Tinha chances para dar um respiro no humor mas… Ainda que sendo um dos cord cutters dessa cidade, nada me faz ficar na frente da TV para algo como o CQC.
Que me desculpe o Dave Mustaine pela adaptação tosca, mas não consegui pensar em nada melhor: Shit sells, but who’s buying it? Aparentemente, centenas de milhares de pessoas e patrocinadores, domingos e segundas, todas as semanas. Ainda mais que, agora, que nem precisam trocar de canal.
Mas, citando mais uma vez uma tuitada da mesma pessoa, sobre esse assunto, a defesa vai ser sempre a mesma:
Ah, é humor. Perdão. Humor pode, né?Humor pode tudo. Humor não deve nada a ng. Humor pode até não ser engraçado. Pode até ser não humor.
Parabéns a todos os envolvidos, dos dois lados da tela.
E que Seinfeld, Monty Python, The Office, Futurama, Coupling, My Name Is Earl e afins continuem com reprises ad infinitum, e que as cenas do esquete do Fábio Renato sejam mantidas na rede para não me esquecer de que, ainda assim, se faz humor para TV.