Dawkins e o “design inteligente”

Uma longa citação alheia, só porque faz tempo que isso não ocorre por aqui e porque eu ainda estou – sim, o livro é trabalhoso – lendo essa obra:

“Ainda há muito trabalho a fazer, é claro, e tenho certeza de que ele será feito.

Esse trabalho jamais seria feito se os cientistas ficassem satisfeitos com um padräo preguiçoso como o estimulado pela “teoria do design inteligente”. Esta é a mensagem que um “teórico” imaginário do design inteligente poderia transmitir aos cientistas:

“Se vocês não entendem como uma coisa funciona, não tem problema: simplesmente desistam e digam que Deus a criou.

Vocês não sabem como o impulso nervoso funciona? Tudo bem! Não entendem como as lembranças säo depositadas no cérebro? Excelente! A fotossíntese é um processo desconcertantemente complexo? Maravilha! Por favor não saiam trabalhando em cima do problema, apenas desistam e apelem a Deus.

Caro cientista, não estude seus mistérios. Traga seus misterios a nós, pois podemos usá-los. Não desperdice a ignorância preciosa pesquisando por ai. Precisamos dessas gloriosas lacunas para o último refúgio de Deus”.

Santo Agostinho disse de forma bem clara: “Existe outra forma de tentaçäo, ainda mais cheia de perigo. É a doença da curiosidade. É ela que nos leva a tentar descobrir os segredos da natureza, segredos que estão além de nossa compreensäo, que nada nos podem dar e que nenhum homem deveria querer descobrir” (citado em Freeman, 2002).”

Richard Dawkins, em Deus, Um delírio.

Pois é. Essa coisa de educação, cultura, raciocínio independente… Isso é um perigo.

Ou, como resume muito bem uma daquelas imagens (citando o próprio Dawkins, lógico) que aparecem pela rede e o tumblr faz o favor de nos apresentar:

Pin It

Holmes, sempre Holmes

O Marcelo Coelho publicou hoje na Folha – ou aqui - um texto bacana sobre o Sherlock na sua versão século XXI que a BBC criou e está chegando por aqui via box de DVD.

Acredite se quiser, até onde eu saiba, essa maravilha da tevê moderna não interessou nenhum canal. Nada. Zero.

Por sorte, a LogOn – que tem parceria faz tempo com a BBC e é mais inteligente (ao menos é o que parece) que todos os canais abertos e pagos – resolveu trazer legalmente, e em embalagem bacana e com todo o resto, a série para o público brasileiro.

Muito bem, meus amigos da tevê. Continuem provando o quanto vocês são dispensáveis.

(Ahh, quanto ao texto do Marcelo, que tem essa beleza de ilustração acima da Lulipenna, vale a leitura. Alguns dos motivos que ele tem para ser fã de Holmes me parecem estranhamente familiares e as observações sobre as diferenças entre a série da BBC, a franquia de Holmes no cinema e a série dos anos 80 vão muito de encontro com o que já havia, de alguma forma, concluído por aqui.)

Pin It

Not Dead & Not For Sale

Lá nos anos 90, o número de pessoas que tinham uma boa coleção de camisas de flanela e encontravam nas letras desesperadas e desesperançadas do grunge a melhor tradução de sua angústia adolescente era enorme.

Não não, era realmente enorme. Era gigantesco.

Era, de longe, o maior fenômeno da cultura, do cinema, da música, do comportamento jovem na época.

Para essas pessoas de 13, 16, 19 ou 22 anos, o grunge era o caminho, a verdade e a vida.

E, se até hoje, a palavra evoca automaticamente Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains e Soundgarden – as duas primeiras com mais força, lógico – tendo vivido e ouvido essa época é certo que você não passou batido, também, pelo Stone Temple Pilots.

Para contar o que foi sobreviver a esses anos em uma banda como o STP, Scott Weiland, o vocalista-e-pedra-fundamental do grupo, lançou no meio do ano passado Not Dead & Not For Sale, uma das biografias de leitura mais rápida da minha vida.

Sem tentar esconder muito o que aconteceu desde o início pequeno da banda, as brigas, as drogas e as prisões – até porque todo fã da música 90s conhece em detalhes as passagens de Weiland com brigas, drogas e prisões – o relato, de capítulos curtos e prá lá de interessantes, começa com uma família em vias de implosão e termina com um artista tentando se achar novamente.

Primeiro dos cinco webisodes sobre o livro que Weiland colocou no Youtube. Estão todos aqui.

Contando a própria história, dando palpites em outros nomes da cena e cutucando sem a menor dó os então-ex-amigos e agora, depois da volta do SPT, novamente amigos, o livro produz frases geniais que ficam ecoando na mente mesmo após a leitura.

É uma história densa, mas que não chega a virar uma leitura pesada; ainda assim, é impossível passar por páginas e páginas de sexo, estupro, heroína, alcoolismo, roubos e prisões e sair intacto.

Por sorte, logo após ter lido o livro no ano passado o Stone Temple Pilots apareceu por aqui, renascido e surpreendentemente bem, para tocar no SWU: Não, eu não poderia ter pedido um finale melhor para a obra.

Ainda que esse show não vá acontecer novamente, isso não atrapalha em nada – é claro -, essa que é uma daquelas obras que dá para recomendar sem medo de errar para quem gosta dessa cena, para quem viveu essa década e chegou até aqui.

Não existe uma edição nacional da obra, nem cheguei a ouvir falar em editoras interessadas mas, se um dia valeu a pena gastar seu inglês com algo, esse dia pode ter chegado.

Manusear com cuidado

Ler algo como Coisas Frágeis – o livro de contos não-inéditos de Neil Gaiman - faz qualquer pessoa entender direitinho porque esse ser é tido como um dos melhores narradores e criadores de personagens em anos e anos e anos de cultura pop.

Gaiman, o cérebro por trás de Sandman, Coraline e Beowulf, sempre soube levar com maestria ímpar a mente do leitor por assombros e delírios – como prova uma leitura rápida de Morte, O Grande Momento da Vida, por exemplo.

Mas por algum motivo – preconceito – sempre acabei indo atrás do que havia sido produzido em quadrinhos para contar as histórias de Gaiman. Mesmo os filmes não pareciam ter alguma coisa – o tal je ne sais quoi – de Gaiman.

Mas como a internet é cheia de ofertas baratinhas, uma delas me trouxe as duas edições de Coisas Frágeis.

De acordo com o próprio Gaiman, a obra reúne histórias publicadas em revistas, coletâneas, capas de CD (!) e até mesmo uma escrita como presente de aniversário para a filha do cara.

E, acredite, é assustador como ele prende a imaginação com cada história (ainda que não tenha os recursos de grandes desenhistas da Vertigo a sua disposição):

Histórias como Um Estudo Em Esmeralda, onde ele leva Sherlock Holmes a um passado/futuro steampunk. A obra é um deleite para qualquer um, e se, assim como este que vos escreve, você gosta de Gaiman e de Holmes e de steampunk… São linhas para serem lidas babando.

Histórias como O Problema de Susan, onde ele mostra que tem toda a bagagem cultural que você pode imaginar de um anglo-saxão crescido nos anos 60/70. Reler e referenciar-se em CS Lewis, um ícone tosco da direita religiosa e autor d’As Crônicas de Nárnia, para criar esse conto mostra o quanto um autor como Neil Gaiman está acima de preconceitos literários e culturais (pobre de mim, que tenho quase todos eles…).

Histórias como O Pássaro do Sol, onde é quase possível se perder com décadas, séculos e milênios rememorados. A saga desses epicurístas é, ao lado do conto de Holmes, o ponto alto da edição.

No Brasil, a Conrad publicou o original dividido, em dois números e, dizem, o primeiro volume contém as melhores histórias.

Não sei não.

Julgando pelo conjunto do que Gaiman entrega no volume 1, ele tem todo o crédito, ainda que – por outro lado – seja difícil mesmo manter o patamar alcançado ao longo desse volume.

A conferir, assim que a leitura do volume 2 começar.

O Último Verão Europeu

Livros sobre guerra – todas elas – existem aos montes e, mesmo assim, nunca havia lido sobre as duas Guerras Mundiais. E, como é importante começar pelo começo (sim, eu tô afim de clichês), é bom começar pela Primeira.

O autor/professor de história David Fromkin consegue, nas aproximadamente 400 páginas de O Último Verão Europeu, fazer um resumo extremamente interessante de tudo que estava acontecendo na Europa naqueles dias que levaram até a Primeira Guerra Mundial: Contando com documentos que descrevem movimentações de bastidores, intrígas, traições, erros e acertos de todos os lados, o que Fromkin escreve cria uma imagem bastante clara do que levou até o conflito.

Mas, como o subtítulo entrega – Quem Começou a Grande Guerra de 1914 – o livro não é para quem esta interessado na movimentação das tropas, armamentos e batalhas. O que Fromkin se propôs a fazer foi levantar o que estava acontecendo na Europa nas semanas anteriores ao início da guerra.

E, para tanto, o professor utiliza documentos descobertos mais recentemente, que dão um conhecimento com mais profundidade a alguns dos fatos e desmontam algumas outras teorias que vinham sendo aceitas desde quando começaram a estudar o evento.

Embora não seja um conhecimento nada recente, o livro já começa deixando bem claro que o assassinado do Duque Francisco Ferndinando não foi o motivo por trás das tensões que levaram à guerra, e sim uma desculpa que veio a calhar para unir interesses dos mais distintos dentro dos exércitos da Alemanha, da Áustria-Hungria e – tenho cá minhas conclusões – também da União Soviética, do Reino Unido e dos EUA.

No que diz respeito as informações, eu não tenho a menor condição de julgar o quão acuradas elas são mas, como não devem existir livros perfeitos sobre assuntos tão controversos, imagino que em alguns momentos a opinião do autor pode ter entrado na frente da pesquisa, mas o leitor não percebe nenhum maniqueísmo tosco ou erros gritantes de datas e afins.

E, sejamos justos, o autor deixa bem claro já no prefácio que o livro é uma interpretação dele sobre o que estava nos documentos e livros consultados.

A única coisa que talvez dificulte a leitura é a sucessão de nomes e sobrenomes de imperadores, oficiais, ministros, embaixadores… Mesmo com um quem-é-quem no fim do volume, isso chega a confundir.

(Talvez isso aconteça apenas com quem leia à noite, na cama, com o sono atrapalhando as vezes…)

No final, os pequenos entraves na obra são exatamente isso: microdetalhes que você nota às vezes, perde outras vezes, e que não chegam nem perto de tirar o seu fôlego, sua profundidade e sua capacidade de criar um ambiente de imersão perfeito para o assunto.

Agora é só achar o próximo livro que conte a Primeira Guerra Mundia em si, já que este para exatamente no início das batalhas.

Sugestões?

Killing Bono

Seu top 3 de assuntos prediletos é música, cinema e literatura e, de repente, você encontra um filme, baseado em um livro sobre uma banda de rock e…

Não, não é que essa obra tenha sido garimpada em sebos, encontrada em um rolo de super 8 no sótão ou pirateada em VHS. “Encontrar” talvez não seja a forma mais honesta de falar sobre  Killing Bono.

O filme foi bem divulgado no lançamento, tem um elenco de estrelas do cinema independente britânico e dificilmente seria ignorado por qualquer pessoa que já tenha ouvido Unforgettable Fire ou War (para citar apenas os discos excelentes da banda), assistido Misfits (por conta da presença de Robert Sheehan) ou frequente os sites da NME ou Spin.

“Encontrar” faz sentido apenas se você entender que o filme ja teve sua première há bastante tempo, estava em casa há meses e só agora foi assistido.

O roteiro é baseado em Killing Bono: I Was Bono’s Doppelganger, livro de Neil McCornick que conta como o autor, seu irmão e alguns amigos tiveram a (má)sorte de serem uma banda irlandesa – precisamente de Dublin – entre o final dos anos 70 e o início da década de 80.

O momento era de novas bandas, um pop rock pra encher estádios mas… Qual a demanda no mundo para bandas irlandesas em 79/80?

Uma. Exatamente uma.

E esse foi o problema deles. O lugar foi ocupado pela monstruosidade do sucesso do U2, deixando os irmãos McCornick muito atrás de Bono Vox.

O filme tem cenas geniais, referências a cultura pop precisas – outras nem tanto -, uma trilha sonora muito bem montada e, apesar de excessos na atuação de quase todos – teatralizadas demais – consegue retratar a ideia de montar uma banda, tentar o sucesso, quebrar a cara e começar de novo, sempre com a desvantagem de ser comparado a um dos maiores grupos que o showbiz já criou.

O autor do livro – e rockstar frustrado – atualmente é editor de música do The Independent e, pelo que esse texto indica, não gostou muito do que viu nem de como se viu nas telas. Já Bono Vox, pelo que consta, não apenas gostou como foi o autor da sugestão do título Killing Bono.

Independente das percepções de ambos ou do quanto o filme é, de fato, fiel ao que se passou naqueles anos, Killing Bono é cinema descompromissado, de risadas garantidas, que vale ser assistido mais de uma vez.

Não, não é um 24 Hour Party People. Mas nem o U2 e nem Bono conseguiriam mesmo competir com o período em que a Madchester de Joy Division, New Order e Stone Roses era o centro do mundo e o big bang do universo musical explodia dentro do Haçienda.