Páginas cor-de-rosa

The National Police Gazette é uma dessas jóias que a internet permite reaparecer, décadas e décadas depois, nas telas do planeta inteiro.

A publicação é considerada antecessora do jornalismo falso de Jon Stewart e similares, além de receber crédito por, muito antes de Howard Stern, reconhecer o apelo de certas imagens e idéias avançadas e ofensivas e formatá-las para serem aceitas pela cultura popular.

Criada por Richard Fox no fim do século XIX, a Police Gazette dedicava-se a cobertura de boxe, uma das paixões do fundador e cuja prática era ilegal nos EUA, desenhos burlescos de mulheres, geralmente mostrando os joelhos – um grande avanço erótico para a época – além de crimes e cobertura de espetáculos teatrais. Mas não era apenas uma revista para os senhores. De acordo com um texto de 1845, ano de sua fundação:

“We offer a most interesting record of horrid murders, outrageous robberies, bold forgeries, astounding burglaries, hideous rapes, and vulgar seductions in various parts of the country…”

A Police Gazette foi, segundo relatos, a primeira publicação a utilizar ilustrações para dramatizar as histórias e, embora não possa ser afirmado com certeza – jornalistas free-lancers, editores, redatores e afins trabalhavam sob codinomes – muitos dos grandes profissionais da imprensa da época passaram pelas páginas cor-de-rosa da publicação.

Essas pioneiras ilustrações eram criada por funcionários que trabalhavam em tempo integral para Fox, geralmente desenhadas à partir de relatos ou lembranças.

Já os repórteres, contratados para trabalhar nos fins-de-semana enquanto estavam longe das redações em que trabalhavam durante a semana, tinham um esquema de trabalho um pouco diferente: Eram trancados – acredita-se que voluntariamente – em uma sala, onde tinham acesso a bebida e comida de excelente qualidade e sem limites, por todo o fim de semana. Na segunda-feira, o segurança os deixava partir para os seus empregos, cada um com dez dólares pelo trabalho executado.

Exemplo clássico e cheio de clichês do romantismo com que enxergamos hoje o jornalismo – e diversas outras profissões – na passagem do século XIX para o XX, a Police Gazette durou até 1977, sendo administrada por Fox até sua morte em 1922, como um multimilionário.

Hearst e Pulitzer, dois nomes em que a imprensa americana se construiu e servem de referência até hoje, já admitiram a “dívida” que mantém com Richard Fox; o império destes começou exatamente no declínio e fim da Police Gazette.

Diz a internet que, após sucessivas vendas, o título hoje encontra-se com uma empresa canadense, e ainda é encontrado em bancas pela América do Norte. Mas dificilmente produz capas com a chamada e a composição dessa dupla Cuba+Lollobrigida.

IstoÉ (um erro)

Se tem uma revista que já não conta lá com uma imagem das melhores é a IstoÉ.

Desde a época que se chamava IstoÉ Senhor, o nome deixava um ar aristocrático sério demais.

Nos tempos mais recentes, as inúmeras notícias de fechamento da Editora Três, atrasos de salário e afins.

(Não, essa última parte não é exclusividade da Três)

Tudo bem, nenhuma empresa vai acertar a vida inteira. Nem a übber-cool Apple acerta sempre. Mas tem certos deslizes que não se pode cometer.

Uma padaria fazer pão com cimento, por exemplo. Ou um bombeiro atear fogo (Só faz sentido em Fahrenheit 451) ao invés de apagar.

É nessa categoria – além da categoria de preguiça injustificável de ao menos ler o texto – que se encaixa a beleza de screenshot acima. Se você precisa ajudar a sua revista a não morrer, nessa época em que é difícil além da conta manter um título impresso vivo, esse tipo de deslize é capaz de acabar com o pouco de imagem que sobrou às revistas.

E prova cabalmente que não, no geral a mídia impressa – especialmente a brasileira – não faz idéia de como vai fazer essa transição.

(Não viu nada de errado? Lê com atenção você também! Ou você é revisor de site na Três?)

Não acredite nas dimensões

“The consumer we want to reach watches ‘Lost’ on a big TV screen, on a computer screen and on an iPhone,” he said. “They’re agnostic on format.”

Gary Armstrong, CMO da Wenner Media em relação ao novo formato da Rolling Stone.

Você também não acha que os termos estão se confundindo demais? Ou isso é possível graças a nossa receptividade a mashups, remixes, copia-e-cola? Agnóstico de formato? Não, isso tá errado.

(E não, eu não acho que faz a menor diferença o formato da. Por mim, a RS podia ter o tamanho da Pix)

Paulo, Ray, Carol e você

Sim, 451 graus na escala Fahrenheit – ou Celsius 233, na versão de um tradutor trapalhão – é a temperatura de combustão do papel. A história acontece num futuro cinzento, com trocadilho, em que livros estão proibidos por um governo ditatorial. Ler, afinal, é muito perigoso. Entre um parágrafo e outro, aiaiaiai, alguém pode, caracas, ter uma idéia.
(…)
Ei, se você chegou agora, seja bem-vinda e fique logo sabendo que 1) Essa piromania editorial é dirigida única e exclusivamente a títulos de auto-ajuda. 2) Especialmente, àqueles cometidos com o intuito, deliberado ou não, de anular qualquer coisa parecida com um pensamento. 3) Mais especificamente, aos livros que têm na alça de mira das estratégias de marketing o tal público feminino, também conhecido como você, leitora.

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O editorial da TPM vêm com referências a dois problemas que irritam este pobre cidadão entretido desde sua alfabetização – trocadilhos e traduções idiotas (mas esse é o menor dos problemas) e auto-ajuda, e uma menção ao já-aqui-tratado Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Vale a pena ler “Quer ler um antidepressivo?” na edição deste mês. E lembrar de um autor cuja auto-ajuda auto-centrada ajuda demais a manter sua vivência no exterior – ao menos o Brasil se livrou deste problema – através de um bom tanto de consumidores fiéis e, desculpem a franqueza, semi-débeis: Paulo Coelho.

Aliás, de tudo, tudo mesmo, que está nessa capa abaixo, o que você acha que vai ajudar a aumentar as vendas (AJUDAR, eu disse. Eu sei que a nudez da tal Carol Castro é o ponto principal mas, entre avião e whisky, espumantes e Paulo Coelho com essa frase já na capa, o que vai chamar a atenção?)

The Tween & Teen Lifestyle Report

“Today’s youth would rather go online, play videogames or watch TV than read magazines or books. According to new data released Thursday (June 19) from research firm Youth Trends, the percentage of teens (ages 13 to 17) and ‘tweens (ages 8 to 12) who read a magazine for fun declined for the third consecutive year, while TV viewing, online and mobile usage increased.”

via

Sempre que saem pesquisas com dados desse tipo – e elas são abundantes – me chegam os mesmos dois pensamentos:

Um – Eles precisam mesmo pesquisar para concluir que as novas gerações não parecem ter o menor interesse em leitura, seja de jornais, revistas, livros ou bulas de remédio?
Sim, eu até imagino que na hora de apresentar alguma brilhante idéia de mídia online para seu gerente, você faz a festa com esses dados. E ele quer ver esses dados, mesmo que sejam batidos, reduntantes, óbvios ou que ele não entenda nem o que tweens significa (E como p.s., entre tweens e twee, claro que prefiro o segundo…)
Tudo bem, algum instituto deve faturar horrores ao buscar essas informações e interpretá-las.

Dois – A mistura de medo do futuro e descontentamento somada a idéia de que realmente não é uma boa idéia ter filhos fica mais presente.
Não, eu não quero que tweens (como esses termos irritam) leiam Em Busca do Tempo Perdido aos 14 anos. Eu nunca li e tenho o dobro dessa idade. Mas não consigo encarar com normalidade o desinteresse que as pessoas, jovens pessoas, demonstram por algumas coisas fundamentais na formação de um… cérebro.
Sim, minha geração deve ter feito a mesma coisa. Sinal de que estou ficando velho e assumindo a postura que tanto criticava, de que “esses velhos nunca me entendem”.

É, deve estar na hora de encarar aqueles sete volumes e comecar a trocar a cerveja por um conhaque, o cigarro por um cachimbo e as camisetas velhas por novíssimas polos.