Sherlock

Sempre foi um atestado de qualidade – meu atestado de qualidade pessoal, entregue de acordo com os meus princípios indiscutíveis – sentir um misto de raiva/desprezo/repulsa por uma personagem qualquer em um filme ou seriado.

É o tipo de coisa que não acontece com frequência e, quando acontece, por algum motivo, me deixa com um pouco de vergonha.

Sim, vergonha, porque eu sempre achei – continuo achando – extremamente idiota ver como se discute a vida das personagens de séries e novelas como se fossem realidade.

Mas algumas vezes o trabalho de um ator é tão espetacular, o casamento personagem + artista dá tão certo que, admito, me dão raiva.

Sim, eu me peguei com raiva do Nathan que Robert Sheehan interpretava em Misfits.

(Em minha defesa, pelo menos não comentava com ninguém as atitudes de Nathan. Talvez por falta de platéia que assista a série, mas ainda assim…)

Em Sherlock isso acontece novamente. E, estranhamente, não é com o próprio.

Não que Holmes não tenha todos os pontos para ser uma personagem odiada mas, para qualquer pessoa que tenha lido seus livros desde sempre, que continue lendo os originais, que leia as adaptações, que leia spin-offs… Você ESPERA isso de Holmes. Estranho mesmo seria fazer dele um investigador qualquer.

(E, nesse caso, já temos a obra de Guy Ritchie, que se encarregou de deixar a obra de Doyle o mais rasa possível. Ainda assim, pensado como cinema para pipoca, é uma boa adaptacão.)

No caso da série da BBC, a personagem que desperta a atenção, que mexe com a imaginação é um Moriarty psicopata, de caras e trejeitos fantásticos, diabólico, afetado. E genial: Como se não bastasse o timing das piadas, as adaptações das histórias e junções de contos em um só episódios, a série consegue utilizar de forma excepcional as poucas aparições do clássico arquirival de Holmes.

Não que isso signifique que Watson sirva apenas de coadjuvante mediano, que o Mycroft  de Mark Gatiss não seja pontualmente obscuro ou algo do genero: só significa que as escolhas de Holmes e Moriarty foram acertadas, que a mão de roteiristas, diretores e atores esteve acertadíssima e não dá para competir com isso.

Como se isso não fosse o suficiente, as intervenções gráficas, os filtros, os cortes e a trilha são de uma qualidade rara nas últimas produções para a televisão.

Pena é ver que, agora que estão em domínio público, as obras de Conan Doyle podem ser estragadas por qualquer um: assim com já fizeram com Life On Mars e Forbrydelsen, chegou a vez das emissoras americanas re-lerem Sherlock Holmes, agora vivendo em NY.

É o preço que se paga por criar um dos mais espetaculares detetives de todos os tempos. A perenidade da personagem expôs Holmes e Watson a esses tipos de desvios.

Que venha então a series 3 de Sherlock.

TV por assinatura: Sempre mais do mesmo

Você liga sua TV, sai trocando de canal compulsivamente – isso é um vício, admita – e dá de cara com um canal novo. Dias depois, isso acontece de novo. E mais uma vez.

Você pode pensar – admito, eu pensei ingenuamente – que ganhou opções. “E nem aumentaram a mensalidade. Oba.”

Mas, como você sabe – ou ao menos imagina, aposto que imagina – não é bem assim.

Eles – e por “eles” entenda a Net – realmente enfiaram mais três canais no lineup do pacote sem mexer no preço. Essa parte é verdade.

O que não fizeram, nem de longe, foi aumentar as suas opções.

A primeira novidade foi o tal do Viva, mas nesse caso não era possível esperar mesmo muita coisa. O nome do canal é horrível e a programação é um mashup mal feito de programas da Globo e dos outros canais da Globosat.

Ou seja: Novidades = 0

(Aqui cabe um parenteses: o viva faz parte do mesmo movimento da Globosat que redesenhou a GloboNews para atrais o novo público que está chegando ao mercado de TV paga. Teoricamente, quem está começando a ter acesso ao serviço agora são as classes mais baixas, beneficiadas pelo momento econômico. Nisso, fica a pergunta: Porque, para a Globosat e os gênios do marketing, os “pobres” tem que ter seus gostos e preferências nivelados por baixo? Mas iss fica para um outro post.)

Depois do Viva chegou o Space. Ok, nesse caso a culpa não é da Globosat, é da Turner, mas a situação é a mesma. Outro canal fazendo um sopão dos mesmos filmes e séries que passam em outros canais da programadora.

O que nós menos precisamos é mais um canal que exiba Without a Trace, os mesmos filmes de “ação e suspense” da Warner, TNT e demais canais da Turner. Mas foi o que ganhamos.

A única diferença é que no Space acabam passando jogos da NBA. Mas esses jogos passam em outros canais, notadamente aqueles feitos para esportes então… Novidades = 0

O último acréscimo foi um novo Telecine. Além de trocarem um dois canais antigos de nome – de novo, lá vão os gênios do marketing – enfiaram na sua TV o Telecine Fun.

E o que isso acrescentou em opções? Absolutamente nada.

Assim como os outro quatro Telecines (honrosamente deixando o Cult de fora), são apenas reprises infinitas de filmes batidos que, para piorar, estão dublados da mesma forma que o Telecine Pipoca.

(E nessa conta não entra o Megapix, outro canal Telecine mas que está disfarçado sob um nome insípido e genérico)

Pensando bem, no caso do TC Fun, existe sim uma novidade: um locutor gritando nas vinhetas, tentando convencer você – da forma mais patética e idiota que se pode imaginar – de que ficar no sofá, assistindo pela milésima vez aqueles filmes, naquele canal, é a coisa mais aventureira, empolgante e engraçada que você pode fazer com sua vida.

Enquanto isso, passam longe do lineup canais como Eurochannel e Film&Arts – que eu tive sorte de assistir por anos na TVA – Biography… Canais que não iriam canibalizar a audiência dos outros canais.

Mas para os gênios do marketing, isso não faz o menor sentido. E não me venham reclamar, depois, dessa geração que sabe mais sobre torrents do que sobre a numeração dos canais…