Holmes, sempre Holmes

O Marcelo Coelho publicou hoje na Folha – ou aqui - um texto bacana sobre o Sherlock na sua versão século XXI que a BBC criou e está chegando por aqui via box de DVD.

Acredite se quiser, até onde eu saiba, essa maravilha da tevê moderna não interessou nenhum canal. Nada. Zero.

Por sorte, a LogOn – que tem parceria faz tempo com a BBC e é mais inteligente (ao menos é o que parece) que todos os canais abertos e pagos – resolveu trazer legalmente, e em embalagem bacana e com todo o resto, a série para o público brasileiro.

Muito bem, meus amigos da tevê. Continuem provando o quanto vocês são dispensáveis.

(Ahh, quanto ao texto do Marcelo, que tem essa beleza de ilustração acima da Lulipenna, vale a leitura. Alguns dos motivos que ele tem para ser fã de Holmes me parecem estranhamente familiares e as observações sobre as diferenças entre a série da BBC, a franquia de Holmes no cinema e a série dos anos 80 vão muito de encontro com o que já havia, de alguma forma, concluído por aqui.)

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Psychoville: Terror, humor negro e coisas afins

Por algum motivo, existia lá no fundo da minha mente um certo preconceito com a ideia de terrores gravados para a televisão em terras inglesas.

(Okey, acho que também contribui o fato de que eu não sou lá muito fã de terror, mas nesse caso nem sei se é realmente uma série de terror.)

Menos do que preconceito, talvez, o que acontecia mesmo é que a maioria das produções mais segmentadas – de nicho, talvez? – não chegam até nós e ficamos meio que presos, basicamente, a dramas e comédias daqueles cantos do mundo.

E eu já não me recordo como é que fui parar nessa série, mas o que importa é que eu acabei pondo as mãos em Psychoville.

E foi um daqueles casos de vício instantâneo.

Se você é fã de humor negro, muito fã de humor negro e adora incondicionalmente o bom humor negro, essa série foi feita para você, acredite.

Existe um problema em comentar Psychoville que é não estragar as surpresas da série que, lógico, é recheada delas. Senão nem seria lá um terror muito eficiente, convenhamos.

Imagine maquiagens exageradas, atuações ainda mais exageradas, situações absurdas e atores feios e travestidos. Ou olhe a foto abaixo, que resume tudo isso.

Mas tentando não estragar o prazer de quem quiser assistir a série, lá vai: Psychoville conta a vida de cinco pessoas de diversos cantos da Inglaterra que recebem uma carta misteriosa de um chantagista.

Até aí nenhuma surpresa estragada.

E esses cinco são um ricaço cego psicopata, uma mãe psicopata de uma boneca – sim, é isso mesmo -, um serial killer psicopata que mora com a mãe, um palhaço psicopata com toques de Krusty e um anão.

O que acontece entre eles é que é a surpresa que não deve ser estragada; E, embora não tenha um final memorável, são 7 episódios que merecem sua atenção.

Sim, é o tipo da coisa que você deve assistir ainda que algumas palavras nesse inglês cockney de quinta categoria deles passem não-compreendidas.

E não, Psychoville não é para qualquer público.

A série chegou a segunda temporada, que viu a audiência diminuir sensivelmente, e mais sete episódios foram produzidos, além do infalível especial (que nem foi de Natal, mas de Halloween); essa segunda temporada a gente comenta em uma futura aparição por aqui.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 02 de maio de 2012

Para não ver: Downton Abbey

Como não podia deixar de ser, mais cedo ou mais tarde a gente iria falar – também – daquilo que não caiu nas nossas preferências: E que tal irmos de Downton Abbey?

Realmente não acho que a série seja ruim, mas esses dias, assistindo a primeira temporada de Deadwood veio o click. Para mim, aquela história da decadência aristocrática britânica e criadagem conspiradora é tão chata quanto a exploração de ouro, a prostituição e as vidas no velho oeste americano são insuportáveis para a minha mulher.

Como reconstituição de uma época e dos hábitos, a série é bem cuidada e, se não chega a ser um primor, não é por falta de boa vontade da produção, aparentemente.

Mas para brasileiros é impossível assistir aquela trama e não pensar em novelas nacionais, sejam elas as superproduções de época da Globo ou as tentativas, bem intencionadas ao menos, da Record e do SBT.

As voltas do enredo, a dramaticidade excessiva e as batatas na boca – ah, as batatas que insistem em enfiar na boca dos atores ingleses que fazem personagens de época – tudo contribui para criar um programa daquele tipo que te tortura na frente da TV.

Se em Deadwood a história é lenta, arrastada, ao menos nos dois primeiros episódios as coisas acontecem; no caso de Downton Abbey, o que acontece é tão marginal que, me desculpem os fãs da série, é mais empolgante ver a vida dos seus vizinhos chineses no Brás.

Algum tempo atrás, um texto na Folha perguntava por que nenhum canal pago do Brasil ainda havia comprado os direitos de exibição. Eu, pela descrição de série de época, início do século, chegando na primeira grande guerra – admito – fiquei seduzido e fui atrás.

Se tivesse me dado ao trabalho de ler a opinião do Marcelo Rubens Paiva no Estadão naquela mesma semana teria economizado um bom tempo:

“Com muita futrica e casamento. É série de menina.”

Mas quem resumiu tudo em uma frase simples limitada a seus 140 caracteres foi o @demonbaby, um ilustrador que trabalha, entre outros, para o Nine Inch Nails:

Just finished watching season one of Downton Abbey with my girlfriend and now I have a vagina.

E, por favor moças, não se sintam ofendidas. Caso vocês sejam fãs dessa série, ok… Agora, se aparecer uma mulher fã de Deadwood ou um homem fã de Downton Abbey, aí sim eu adoraria de ouvir a opinião deles.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 17 de abril de 2012

Black Books e o humor dos ingleses

A indicação veio de longe. Precisamente do meio de Minnesota. E como eu confio em quem tem bom gosto musical, fui atrás dessa pérola britânica da incorreção social que só podia mesmo ter saído lá do fim dos anos 90.

Black Books lembra, no principio, as comédias que o Steven Moffat criou.

(Para quem não conhece, Steven Moffat é quase um J.J. Abrams da TV inglesa. O cara tá envolvido em Sherlock, Coupling, Doctor Who, Jekyll e outras várias produções de sucesso nos domínios da rainha.)

Mas já nos primeiros minutos dá para perceber que a pegada de Black Books é diferente.

Se o humor de Coupling é acessível para (quase) todos, Black Books parece exigir que você, telespectador, tenha uma carga de mau humor, sarcasmo e ironia muito acima da média.

A série toda se baseia na vida de três personagens: Bernard Black, dono de uma livraria, Manny, funcionário nessa livraria, e Fran, amiga de Black.

Black – interpretado por Dylan Moran, criador da série – não está nem um pouco interessado em vender livros. A cena clássica da série é composta dele, sentado entre cigarros e garrafas de vinho e absinto, lendo e afugentando clientes.

Aliás esse parece ser o real motivo dele ter a loja: o dono da Black Books demonstra um prazer todo especial em afugentar seus clientes, se negar a vender livros e, em uma das melhores cenas da primeira temporada, pagar para que o cliente levasse os livros embora apenas para que ele não tivesse o trabalho de vendê-los.

Como toda sitcom que se preze, os episódios tem cenas curtas e histórias fechadas e independentes, mas acompanhar a série faz diferença para “educar” os sentidos quanto ao humor (ou a falta de humor) que Black e Fran apresentam em relação a tudo.

Enquanto ambos parecem querer fugir do mundo – e são nessas ocasiões que aparecem as melhores cenas – Manny, o empregado da livraria, é o mais-que-necessário contraponto a todo protagonista de comédia.

Manny se incomoda com a falta de higiene do lugar, a bagunça dos livros, o descontrole das finanças, o mau humor de Black.

Mas isso tudo acima não consegue – nem de longe – descrever o ambiente da série ou as situações que surgem ao longo de cada episódio.

A série durou três temporadas, quase um padrão para as curtas séries britânicas, e não sei se eles mantém o fôlego nas próximas duas… Mas a julgar pelo que está escrito por aí, a série foi tirada do ar no seu auge.

Mas sobraram, ao menos, 18 episódios para a posteridade.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 29 de março de 2012

Forbrydelsen

A primeira temporada de Forbrydelsen, talvez o único hit dinamarquês pelas tevês mundo afora, chegou recentemente ao Brasil em versão alta definição pela Globosat HD, depois até da estreia por aqui do remake norte-americano produzido pela AMC e transmitido no cabo pela A&E.

E eu admito que não assisti a essa versão norte-americana por um único motivo.

Não tem como tirar da cabeça as interpretações originais e os atores originais de Forbrydelsen: Para quem está acostumado a ver e rever atores conhecidos em diferentes séries, o ineditismo das caras novas é um choque que só faz bem.

(Também colabora para eu não ter assistido o remake o fato de não gostar de remakes de suspense e investigação. Se for o mesmo final, acho que perdi tempo. Se é um final diferente, acho uma blasfêmia. Complicado, não?)

Claro que a atuação deles faz toda a diferença, mas não dá para deixar de notar como é diferente assistir uma série cheia de caras desconhecidas, paisagens inéditas e uma língua completamente estranha.

O roteiro não tem grandes sustos ou reviravoltas mirabolantes e, talvez, esteja aí seu grande trunfo. É difícil acreditar em certas mudanças das histórias que algumas séries de suspense norte-americanas criam, e isso colabora para quem gosta dessa sensação de tevê pé no chão.

Nas atuações, vale notar as interpretações do candidato a prefeito Troels Hartmann (Lars Mikkelsen) e, especialmente, a investigadora Sarah Lund (Sofie Gråbøl): Ela realmente consegue despertar uma raiva única em quem assiste, tamanha a teimosia que imprime na personagem.

Ao contrário do que a gente está acostumado a ver nos EUA, a série não tem o final feliz que tanto agrada as platéias e isso, talvez, se explique por uma observação da atriz principal, em entrevista para a Folha:

“Os países nórdicos têm essa tradição de mostrar o lado sombrio da mente humana. Veja Ibsen, Strindberg, Bergman.”

Assista.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 23 de março de 2012

Sherlock

Sempre foi um atestado de qualidade – meu atestado de qualidade pessoal, entregue de acordo com os meus princípios indiscutíveis – sentir um misto de raiva/desprezo/repulsa por uma personagem qualquer em um filme ou seriado.

É o tipo de coisa que não acontece com frequência e, quando acontece, por algum motivo, me deixa com um pouco de vergonha.

Sim, vergonha, porque eu sempre achei – continuo achando – extremamente idiota ver como se discute a vida das personagens de séries e novelas como se fossem realidade.

Mas algumas vezes o trabalho de um ator é tão espetacular, o casamento personagem + artista dá tão certo que, admito, me dão raiva.

Sim, eu me peguei com raiva do Nathan que Robert Sheehan interpretava em Misfits.

(Em minha defesa, pelo menos não comentava com ninguém as atitudes de Nathan. Talvez por falta de platéia que assista a série, mas ainda assim…)

Em Sherlock isso acontece novamente. E, estranhamente, não é com o próprio.

Não que Holmes não tenha todos os pontos para ser uma personagem odiada mas, para qualquer pessoa que tenha lido seus livros desde sempre, que continue lendo os originais, que leia as adaptações, que leia spin-offs… Você ESPERA isso de Holmes. Estranho mesmo seria fazer dele um investigador qualquer.

(E, nesse caso, já temos a obra de Guy Ritchie, que se encarregou de deixar a obra de Doyle o mais rasa possível. Ainda assim, pensado como cinema para pipoca, é uma boa adaptacão.)

No caso da série da BBC, a personagem que desperta a atenção, que mexe com a imaginação é um Moriarty psicopata, de caras e trejeitos fantásticos, diabólico, afetado. E genial: Como se não bastasse o timing das piadas, as adaptações das histórias e junções de contos em um só episódios, a série consegue utilizar de forma excepcional as poucas aparições do clássico arquirival de Holmes.

Não que isso signifique que Watson sirva apenas de coadjuvante mediano, que o Mycroft  de Mark Gatiss não seja pontualmente obscuro ou algo do genero: só significa que as escolhas de Holmes e Moriarty foram acertadas, que a mão de roteiristas, diretores e atores esteve acertadíssima e não dá para competir com isso.

Como se isso não fosse o suficiente, as intervenções gráficas, os filtros, os cortes e a trilha são de uma qualidade rara nas últimas produções para a televisão.

Pena é ver que, agora que estão em domínio público, as obras de Conan Doyle podem ser estragadas por qualquer um: assim com já fizeram com Life On Mars e Forbrydelsen, chegou a vez das emissoras americanas re-lerem Sherlock Holmes, agora vivendo em NY.

É o preço que se paga por criar um dos mais espetaculares detetives de todos os tempos. A perenidade da personagem expôs Holmes e Watson a esses tipos de desvios.

Que venha então a series 3 de Sherlock.

Texto republicado na TV Magazine em 10 de abril de 2012