The Cure @ Arena Anhembi

8 de abril de 2013 às 12:26

rodape_the_cure

Teve fila para chegar, teve ingresso caro, teve mudança de local, teve aquela bobagem de área vip.

Teve subdimensionamento da vontade de tomar cerveja das pessoas, teve atendente perdido quase surtando, teve caixa com fila e sem sistema, teve falta de copo plástico no bar.

Teve presença de pai, de filho, de mãe, de tia, de avó, de motoqueiro, de gótico, de stoner, de punk, de gordinhas de preto, de gordinhas de branco, de magrinhas de preto, de magrinhas de branco, de sobretudos, de camisetas, de coturnos, de tênis.

Teve gente chorando na fila para entrar, chorando na fila do bar, chorando e pulando, chorando e abraçando, chorando e beijando.

Teve gente sorrindo embasbacada.

Teve uma sequência de faixas que poucas – muito poucas – bandas podem fazer em uma só noite.

Teve hit, teve super hit, teve hit imbatível, teve lado B, teve música tocada igual ao disco, deve música reinterpretada.

Teve carioca e catarinense, teve gaúcho e paulista, teve baiano e mineiro.

Teve setlist longo, teve bis, teve segundo bis.

Teve Lovesong, teve Pictures Of You, teve Fascination Street, teve Why Can’t I Be You, teve A Forest.

E, é claro, teve 10:15 Saturday Night.

E daí prá frente – menos mal que já era quase o final – não precisava ter mais nada.

Unknown Pleasures: Inside Joy Division

5 de março de 2013 às 11:46

JoyDivisionBook

Não sei se ler livros sobre música pode ser considerado algo minimamente sinestésico mas, se for o caso, meu apartamento tá num momento sinéstésico prá diabo.

Não que antes essas biografias, contos, textos, rabiscos e afins não chamassem a atenção, mas o assunto tá numa sequência entre eu e a minha digníssima que é de dar gosto: Se agora estamos em conexões músico-neurológicas e a história de um ícone absuro e incontestável – respectivamente o meu Musicophilia e David Bowie dela – fazem algumas semanas que liamos sobre post punk, a Patti Smith, o Joy Division… E é exatamente esse último que interessa aqui.

Sim, se você gostar tanto de post punk, de rock alternativo, de anos 70, 80 e de Joy Division quanto eu, as chances de que uma obra como essas já comece com a sua simpatia ganha são grandes; e, no caso de Unknown Pleasures, com o passar das páginas, a simpatia pela obra só aumenta.

(Mas claro que não é tudo que raspa no tema que agrada; Touching From A Distance, o livro de memórias da Deborah Curtis, é um que eu nunca consegui passar das primeiras dezenas de páginas; parece que a “aura” de alguém de dentro da banda, neste caso o Peter Hook, faz diferença para como você encara a história toda.)

Prá começo de conversa, um livro em que o name dropping do cara envolve A Certain Ratio, Durutti Column, Cabaret Voltaire, OMD – sejamos sinceros – já ganha uma enormidade de pontos; e quando o autor que fez isso foi parte de duas das mais fundamentais bandas das décadas de 70/80/90 (e não precisaria disso prá ser levado a sério), aí o jogo já está praticamente ganho prá ele.

Não quer dizer que o livro seja perfeito, livre de falhas, mas isso é uma percepção tão pessoal que, de verdade, não sei se vale a pena ser mencionado; de qualquer forma… mencionemos: Um dos aspectos que me parecem exagerados na obra é a infindável lista de locais em que eles tocaram, acompanhados de quem, com a entrada custando 75p.; e, se comigo isso soou excessivo, li um bom número de comentários em que as pessoas pediam mais detalhes dos shows, uma lista mais completa, imagens de cartazes… livro_unknown

Talvez se tivesse lido a versão impressa, realmente, um apêndice de páginas em papel couche com reproduções dos cartazes e mais fotos viesse a calhar; como acabei lendo em versão ebook – não, não quis esperar o livro chegar pelo correio e o ePub dele estava ridículo de tão barato no Kobo – esse preciosismo no design gráfico não fez falta.

(Por outro lado, algo que faz sim falta, mas talvez seja só na versão ebook, é aquela coisa bacana de grifar, rabiscar. Mas pode ser que eu é que não saiba usar esse recurso direito ainda; e esse recurso de grifar não faz falta só nesse título então é uma crítica mais ao aparelho que ao livro.)

E deixando tantas divagações de lado, quanto ao texto em si:

Uma das características que mais chamou a atenção no livro é algo que aproxima a obra de Peter Hook da auto-biografia do Lobão: ler o texto dele parece bastante com uma conversa informal em que o cara está te contando as histórias, em algo que parece ser muito o jeito dele de falar: isso, por si só, deixa a leitura bem fluída e difícil de largar.

Embora você se pegue durante todo o livro percebendo uma ou outra cutucada do Hook nos seus ex-parceiros Bernard Sumner e Stephen Morris, elas soam com um misto de acidez merecida e bobagem adolescente que não deixam transparecer uma pessoa magoada em excesso ou atormentada por isso; se o que aconteceu entre eles no Joy Division e nas encarnações do New Order não terminou exatamente de forma amigável, também não é ponto mais negativo da vida do cara.

(E aí vai uma nota de percepção pessoal: O Bernard sempre me pareceu o mais amargurado e cheio de ressentimento deles todos. Até porque o Stephen não parece nada.)

E, ao contrário dessa adolescência das provocações, os momentos em que você percebe o lado mais cheio de culpa no livro são relacionados a Ian; e não poderia ser muito diferente mesmo.

Hook se põe, inúmeras vezes, como um dos culpados por não perceber o estado em que Ian se encontrava, a gravidade da doença, o desespero explícito em algumas letras e, com tudo isso de lado, continuar em turnê, fazendo shows, viajando.

Recheada de frases impagáveis que só poderiam surgir dessa mistura agridoce de humor, falta de esperança, raiva e superioridade dos britânicos, a obra vale cada centavo – ainda mais quando você paga pouquinho, claro.

(E é no que diz respeito a essas dezenas de citações geniais que o fator ebook atrapalhou e o impresso teria me salvado: nada do que eu grifei para usar aqui ficou salvo. Mas revendo isso, talvez a crítica não seja mesmo ao livro nem ao aparelho, e sim ao leitor aqui. Ops.)

Resumindo? Leia.

E, se aguentar, leia também o livro da Deborah e depois me conta o que tem de bom por lá.

Pulp @ Via Funchal

30 de novembro de 2012 às 14:52

Sabe a ideia de fazer um review de um carro de F1 prá falar “eu sabia que era rápido, mas não TÃO rápido”?

Então, e igual a fazer um review prá falar que um show do Pulp foi bom.

Rain Machine @ SESC Belenzinho

28 de setembro de 2012 às 15:15

Kyp Malone e o baixista que eu JURO que pediu um sanduíche de pernil no palco.

Falar desse show que o Rain Machine fez ontem no SESC Belenzinho serve, na verdade, a um propósito maior.

O projeto paralelo do Kyp Malone, vocalista+guitarrista fodão do TV On The Radio, não é experimental, não é transgressor, não quebra paradigmas e não define o futuro da música.

Não, nada disso.

O que o show mostrou é que, ao vivo, a apresentação do cara ganha um corpo que o único disco do Rain Machine, lá de 2008, não consegue entregar; mas isso é de se esperar de alguém com a capacidade vocal-improvisativa de Malone.

Não é um show para qualquer audiência – certamente não era o tipo de evento para o casal infeliz de bêbados inconvenientes que estavam grudados no palco – mas quem estava lá não era uma audiência qualquer.

Buscar um show desses e se interessar esses sons demonstra – e aí estou julgando sem a menor culpa o grupo em que me incluo – uma vontade de achar coisas novas que, por sorte, não deixa de existir.

Não deixa de existir nas pessoas que não param no tempo e passam 50 anos endeusando Beatles e não deixa de existir em uma cidade que sempre vai ter um público para o que quer que seja produzido.

E é nisso que entra o SESC.

Se não fosse essa instituição – e nesse caso é uma pena que eles sejam, de fato, uma instituição, já que chamá-los assim não dá o mesmo peso que temos quando usamos o termo para outras não-instiuições – a vida nessa cidade seria culturalmente muito mais pobre.

Um show para públicos pequenos, que não interessaria nenhuma produtora? O SESC banca.

Uma peça alternativa, para poucos espectadores? O SESC banca.

Cursos espalhados pela cidade para todos os públicos possíveis? O SESC banca.

Piscinas, quadras, bibliotecas? SESC. SESC. SESC.

Não, eles não são a resposta universal a todos os problemas sociais, culturais e afins mas fazem, com menos dinheiro, infinitamente mais do que qualquer governo faz com orçamentos estratosfericamente maiores.

Não, eles não estão livres de críticias, de terem problemas e não são perfeitos mas, ainda assim, entregram com qualidade, pontualidade e ecletismo uma programação difícil de superar, a custos que nos parecem surreiais em tempos de shows de R$ 1.000,00 e festivais de R$ 400,00.

Mais do que um post prá falar do show – e agradecer a banda pelo show que não deixou nada a desejar – isso aqui é para agradecer, em nome de tantos e tantos frequentadores assíduos ou esporádicos, pelo que o SESC fez pela nossa formação cultural.

Muito obriagado.

(Ah, e vender meia garrafa de vinho durante o show mais barato que cerveja em lata em qualquer bar? Muito, muito, MUITO obrigado.)

Tudo em um

30 de agosto de 2012 às 9:06

“Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha Spica – a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil – João Gilberto cantando “Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação.”

Nelson Motta, Noites Tropicais.

A edição atual da Trip - que toca no tema da amizade e das moças com peitos de fora em Buenos Aires – tem uma entrevista bacana do Nelson Motta.

E, embora a entrevista não traga nada de inédito – imagino eu, não conheço toda a vida do cara também… – ela é bem bacana prá que já leu os livros dele; conforme você lê, diversos flashbacks dos livros dele ou mesmo dos textos que ele publica no jornal podem aparecer na sua cabeça.

Mas, mais do que Vale Tudo, em que ele conta a história do Tim Maia – recomendadíssimo, aliás – o que me veio a cabeça foi esse pedaço destacado aí em cima, da auto-biografia do Nelsomotta, como o chamaria Tim Maia.

Em uma só frase, o cara junta mulheres, boemia, bossa nova, São Paulo e Rio de Janeiro: coisa fina esse poder de síntese.

E, mais do que poder de síntese, essa habilidade de tudo-em-um é quase a descrição do próprio, um tudo em um da cultura nacional que, goste-se ou não, há de se respeitar.

Jon-motherfucking-Lord

16 de julho de 2012 às 15:46

Era uma vez, anos e anos atrás, um show no Via Funchal.

Esse cidadão aí, na época já de cabelos brancos, de alguma forma conseguiu fazer um solo no teclado que ficou mais na minha cabeça – até hoje está por aqui, aliás – do que os solos de guitarra, do que a bateria, do que o baixo.
Esse cidadão aí valeu o show inteiro.
E hoje ele morreu.
R.I.P., Lord.