
Não sei se ler livros sobre música pode ser considerado algo minimamente sinestésico mas, se for o caso, meu apartamento tá num momento sinéstésico prá diabo.
Não que antes essas biografias, contos, textos, rabiscos e afins não chamassem a atenção, mas o assunto tá numa sequência entre eu e a minha digníssima que é de dar gosto: Se agora estamos em conexões músico-neurológicas e a história de um ícone absuro e incontestável – respectivamente o meu Musicophilia e David Bowie dela – fazem algumas semanas que liamos sobre post punk, a Patti Smith, o Joy Division… E é exatamente esse último que interessa aqui.
Sim, se você gostar tanto de post punk, de rock alternativo, de anos 70, 80 e de Joy Division quanto eu, as chances de que uma obra como essas já comece com a sua simpatia ganha são grandes; e, no caso de Unknown Pleasures, com o passar das páginas, a simpatia pela obra só aumenta.
(Mas claro que não é tudo que raspa no tema que agrada; Touching From A Distance, o livro de memórias da Deborah Curtis, é um que eu nunca consegui passar das primeiras dezenas de páginas; parece que a “aura” de alguém de dentro da banda, neste caso o Peter Hook, faz diferença para como você encara a história toda.)
Prá começo de conversa, um livro em que o name dropping do cara envolve A Certain Ratio, Durutti Column, Cabaret Voltaire, OMD – sejamos sinceros – já ganha uma enormidade de pontos; e quando o autor que fez isso foi parte de duas das mais fundamentais bandas das décadas de 70/80/90 (e não precisaria disso prá ser levado a sério), aí o jogo já está praticamente ganho prá ele.
Não quer dizer que o livro seja perfeito, livre de falhas, mas isso é uma percepção tão pessoal que, de verdade, não sei se vale a pena ser mencionado; de qualquer forma… mencionemos: Um dos aspectos que me parecem exagerados na obra é a infindável lista de locais em que eles tocaram, acompanhados de quem, com a entrada custando 75p.; e, se comigo isso soou excessivo, li um bom número de comentários em que as pessoas pediam mais detalhes dos shows, uma lista mais completa, imagens de cartazes… 
Talvez se tivesse lido a versão impressa, realmente, um apêndice de páginas em papel couche com reproduções dos cartazes e mais fotos viesse a calhar; como acabei lendo em versão ebook – não, não quis esperar o livro chegar pelo correio e o ePub dele estava ridículo de tão barato no Kobo – esse preciosismo no design gráfico não fez falta.
(Por outro lado, algo que faz sim falta, mas talvez seja só na versão ebook, é aquela coisa bacana de grifar, rabiscar. Mas pode ser que eu é que não saiba usar esse recurso direito ainda; e esse recurso de grifar não faz falta só nesse título então é uma crítica mais ao aparelho que ao livro.)
E deixando tantas divagações de lado, quanto ao texto em si:
Uma das características que mais chamou a atenção no livro é algo que aproxima a obra de Peter Hook da auto-biografia do Lobão: ler o texto dele parece bastante com uma conversa informal em que o cara está te contando as histórias, em algo que parece ser muito o jeito dele de falar: isso, por si só, deixa a leitura bem fluída e difícil de largar.
Embora você se pegue durante todo o livro percebendo uma ou outra cutucada do Hook nos seus ex-parceiros Bernard Sumner e Stephen Morris, elas soam com um misto de acidez merecida e bobagem adolescente que não deixam transparecer uma pessoa magoada em excesso ou atormentada por isso; se o que aconteceu entre eles no Joy Division e nas encarnações do New Order não terminou exatamente de forma amigável, também não é ponto mais negativo da vida do cara.
(E aí vai uma nota de percepção pessoal: O Bernard sempre me pareceu o mais amargurado e cheio de ressentimento deles todos. Até porque o Stephen não parece nada.)
E, ao contrário dessa adolescência das provocações, os momentos em que você percebe o lado mais cheio de culpa no livro são relacionados a Ian; e não poderia ser muito diferente mesmo.
Hook se põe, inúmeras vezes, como um dos culpados por não perceber o estado em que Ian se encontrava, a gravidade da doença, o desespero explícito em algumas letras e, com tudo isso de lado, continuar em turnê, fazendo shows, viajando.
Recheada de frases impagáveis que só poderiam surgir dessa mistura agridoce de humor, falta de esperança, raiva e superioridade dos britânicos, a obra vale cada centavo – ainda mais quando você paga pouquinho, claro.
(E é no que diz respeito a essas dezenas de citações geniais que o fator ebook atrapalhou e o impresso teria me salvado: nada do que eu grifei para usar aqui ficou salvo. Mas revendo isso, talvez a crítica não seja mesmo ao livro nem ao aparelho, e sim ao leitor aqui. Ops.)
Resumindo? Leia.
E, se aguentar, leia também o livro da Deborah e depois me conta o que tem de bom por lá.