Espelho, espelho meu

15 de maio de 2013 às 14:35

Me fala se uma foto como essa do Sergey Brin (que a Reuters capturou no Google I/O desse ano) não é – prá dizer o mínimo – assustadora, por dezenas de razões.

Google Glass

(Além do que, conforme notou algum texto em uma Slate, Salon, Wired ou afins, assim como o protetor de caneta de bolso, um negócio desses deixa com uma aura nerd idiota fadada ao fracasso.)

Sim, eu vivo em uma casa em que duas pessoas usam sete, oito, nove IPs diferentes em uma noite qualquer.

Sete.

Oito.

Nove.

Sim, eu adoro um gadget, um black mirror qualquer; obviamente não acho que a saída ludita seja o caminho.

Mas em algum momento, alguma luz de alerta tem que piscar na sua cabeça.

Se alguém está feliz com a ideia de ter seu Google Glass, eu entendo; agora, se essa mesma pessoa não tem o menor medo do que está acontecendo, aí eu não entendo.

E o ser humano em questão não está entendendo absolutamente nada do que está acontecendo.

Cada vez mais as ferramentas e os aparelhos conseguem despertar o que tem de mais escroto nas pessoas, mas disso todo mundo – inclusive eu – já falei em excesso.

Cada vez mais as ferramentas e os aparelho conseguem despertar o juiz, o júri e o executor de absolutamente tudo, lá dentro da nossa cabeça.

Parabéns. Nós conseguimos.

Repensando o que a tecnologia que nós criamos virou – e no que ela nos transformou – eu me permito descer o padrão do vocabulário usual dessas páginas:  A gente fodeu a porra toda.

Retro Media

5 de dezembro de 2012 às 10:58

We ❤ Retro Media: Vinyl, VHS, Tapes & Film

Okey, okey, eu concordo que a gente adora essa coisa retro/oldschool/vintage toda, acho mesmo que o lance com o vinil é bacana e justificável mas nem tudo merece mesmo voltar.

Tá, os filmes fotográficos tem seu valor como experimentação. Mas é basicamente isso.

Idem para um Super8 ou uma Polaroid.

(Tá aí essa porrada de filtro nostálgico prá mostrar o quanto a gente quer um vintage, ainda que instantâneo.)

Já nas fitas cassetes e nos VHS, aí sim não faz sentido algum.

Além de servir como peças de decoração – sim, eu tenho isso também – ou como… é, basicamente isso, peças de decoração, qual a idéia purista por trás disso?

Gravar um vídeo baixado em bluray prá VHS e assistir na TV velha da vó?

É.

Tá indo um pouco longe demais isso, não?

Pelo menos a gente ainda tem uns itens bacanas prá reviver; não consigo imaginar que, em algumas gerações, as pessoas voltem a usar iPods com esse mesmo interesse.

C-Scape

21 de novembro de 2012 às 10:37

Às vezes você tem a sorte de pegar um saldão de livros qualquer por aí.

Algumas dessas vezes um livro importado sai por 10 reais e você que nunca ouviu falar do livro nem do autor acha que vale a aposta.

E esse foi o caso do C-Scape.

Claro que aquela linha com “Conteúdo. Consumidor. Curadoria. Convergência” na capa ajudou a chamar a atenção mas, ainda assim, foi uma daquelas compras no escuro.

E se pagou. (Fica a dica: Livros SEMPRE merecem ser comprados, o que não significa que TODOS mereçam ser comprados. Entendeu?)

O autor Larry Kramer trabalhou no Washington Post, USA Today – essa reinventada atual do diário, abusando do visual social media no impresso, é culpa dele -, foi primeiro presidente da CBS Digital, fundou o MarketWatch e fez mais coisas do que a gente pode imaginar que um jornalista-publisher-editor-afins possa fazer.

E nessas duzentas e poucas páginas o cara abre o jogo e conta como ele e outros profissionais mudaram a forma de fazer negócios quando entenderam algo que – agora – é quase óbvio, quer você tenha ou não lido o livro, mas é feito por poucas empresas e bem feito por ainda menos companhias.

A proposta básica se resume em entender que, não importa o que diabos sua empresa crie, transforme e comercialize, você – a empresa, no caso – é uma provedora de conteúdo.

Nada demais, certo?

Então porque 99,9% das empresas – inclusive centenas delas que sobrevivem do negócio de mídia, conteúdo, informação – não fazem isso?

Não fazem porque não entenderam, de fato, as mídias sociais, o papel da curadoria e – mais grave de tudo – não fazem a menor ideia de que o que seu consumidor espera mudou.

Ao se comportarem como curadores em um mundo onde toda a informação é ou vai, eventualmente, ficar livre, e garantir a preferencia baseados na qualidade dessa curadoria, as empresas tem muito – mas MUITO – mais chances de escaparem do buraco negro da hipercompetitividade com contrabandos chineses – caso de produtos “físicos” – ou da agilidade e da gratuidade de informações incompletas (mas livres) que circulam pela rede.

É isso, e é muito mais que isso.

Enquanto lia o livro, a quantidade de vezes que eu fiz aquela cara de “Lógico!” foi impressionante. E já falei prá alguns desses meus parceiros de trabalho na comunicação que eles deveriam ler esse livro mas, independente de qual seja seu ramo, eu aposto que você também ia aproveitar bem a leitura.

 

PD: Nevasca

9 de novembro de 2012 às 9:00

Eu já acabei o livro faz um tempo mas, sinceramente, estava com dificuldades em imaginar como começar a falar de Nevasca.

Mesmo.

(Blogging block, a evolução do writers block. Que beleza são os novos tempos.)

Mas aí, já lendo outro livro, veio aquele estalo não-genial que acontece as vezes: Renascentista. Leonardo Da Vinci.

É isso!

Faz tempo que eu carrego essa admiração apaixonada pelo Léo – sim, tanto tempo que eu já sou íntimo do cara – e do que ele escolheu para a vida.

(Meu primeiro esforço publicador nessas interwebs da vida, inclusive, foi um site – constuído em FRONTPAGE, acredite – sobre Da Vinci. Sim, faz tempo.)

E essa admiração foi, em parte, transferida para esse trabalho do Neal Stephenson.

O que o Stephenson criou nessa obra só pode ter saído de uma cabeça com tendências renascentistas, razoavelmente influenciadas por excessos tecnológicos, pitadas de steampunk, desvios de comportamento e interesses no que existe de pior na cabeça do ser humano.

E tudo isso é elogio.

A mistura de religião, tecnologia, história, ciência, criptografia, matemática, sexo, linguística, distopia e mais um bocado de coisas é, prá minha cabeça, um sinal e tanto dessa tendência à mentalidade renascentista, que pregava tanto essa capacidade do homem de ser conhecedor de praticamente tudo, de várias áreas do conhecimento.

Basicamente um Da Vinci, um pouco interessado em tudo, um pouco mestre em todas as áreas do conhecimento de sua época.

A história toda, descamba, em pouquissimos momentos, para um excesso descritivo até que justificável – nem todo mundo tem que entender co-relações de personagens históricos bíblicos ou o sistema binário, por exemplo – mas, fora isso, suas quase quinhentas páginas passam com a tranquilidade dos grandes, grandes livros.

Escolhido pela Time como um dos 100 maiores romances americanos escritos desde 1923, a história de um mundo basicamente controlado por corporações gigantes, onde franquias-estado tem muito mais poder do que qualquer governo não fica devendo nada a realidade em que estamos, onde empresas tem teóricos PIBs superiores a dezenas de nações.

“Stephenson is that rare—no, unique—thing, both a virtuosic literary stylist and a consummate observer of a brave new world where information flows freely between humans and computers, to the point where the two are no longer easily distinguishable.”
Lev Grossman, Time, 2005

Passada em partes na vida “real”, um bom tanto da história também se desenvolve em um mundo paralelo, virtual, onde as pessoas tem sua segunda existência que, aparentemente, é muito mais interessante do que a vida real em um planeta beirando o caos.

Parece familiar?

Pois é. Second Life rodando com esteróides seria uma boa definição desse metaverso criado em Nevasca.

(Que, aliás, é um nome ruim mas ao menos é uma tradução feial do título original – Snow Crash. Imagina que em portugal eles leram “Samurai: Nome de Código”.)

É difícil dizer mais sobre o livro sem ser superficial ou se aprofundar demais e tornar isso aqui em um resumo então imagine que toda a ação se passa entre uma garota de delivery de documentos – uma FedEx, talvez – de quinze anos, um samurai hacker entregador de pizza, a máfia italiana, imigrantes ilegais em grandes navios vagando pelo mundo e uma busca por um vírus digital que afeta a vida real.

Só isso.

Renascentista, eu falei.

Vale cada página, sim, mas não é prá qualquer um não.

Das várias formas de conseguir o que se quer

25 de outubro de 2012 às 9:18

A explicação é a mesma: quem baixa conteúdo é, antes de tudo, um entusiasta e um consumidor de entretenimento. “Nosso estudo indica que essas pessoas tendem a fazer um uso intensivo de todos os canais disponíveis, sejam eles legais ou ilegais”, disse ao site TorrentFreak o responsável pelo estudo holandês, Joost Poort. Para esses consumidores, não há uma barreira entre o legal e o ilegal. As pessoas optam pelos caminhos conforme as suas necessidades.

Um aviso para a indústria: não processe. Seduza os clientes
Tatiana de Mello Dias, no Link

Mas não.

Você vai lá nos YouTubes, Hulus, NetFlixes e afins e dá de cara com isso:

Ou isso:

 O que é que vocês querem hein?

Tá, isso é meio retórico, vocês querem ganhar dinheiro com o produto de vocês, obviamente.

(Nada errado com isso não, claro, também quero ser pago pelo meu trabalho.)

Mas se é isso que vocês querem, amigos da NBC, FOX, CBS, BBC e afins, o projeto de vocês devia ser levar o conteúdo ao máximo de pessoas possível, não bloquear o máximo de pessoas possível.

Faz sentido, não?

Mas…

Eu sei, existem milhões de “poréns”, “contudos”, “senões”, parágrafos e incisos que podem ser citados.

Mas isso se aplica, digamos, a BBC passando um filme americano no seu site e não sendo disponível no Brasil, certo?

Ou um show que a FOX comprou prá exibir em seu site para os americanos.

Tudo bem.

Mas e esse monte de produções originais dos canais?

É isso, em grande parte, que estamos interessados.

CSI, Fringe, Sherlock, No Reservations, Dexter, essas coisas sabe?

E a gente tem pouca paciência, vocês já notaram não? Um canal comprar a série e demorar seis meses para estrear por aqui… Hmmm, será?

Tem que legendar, eu sei mas – eu sei e vocês sabem – em 24 horas ou menos todos os episódios estão legendados em umas trinta línguas distintas pela rede.

Esse povo desesperado pra ver o episódio no dia seguinte não podia comprar lá naquele iTunes, legalizado, ao invés de piratear?

Não dá tempo de legendar? Ok, manda lá sem legenda.

Eu sei que tem gente que não se importa. E quem se importa que, aí sim, espere o dublado ou legendado na TV a cabo.

Mas não custa facilitar a vida sabe?

E vocês ainda podem até ganhar uma grana.

Sério, a gente não é inimigo não. Quero mais é que vocês encham os tudos de dinheiro, façam mais e mais séries fodonas.

Mas, aê, ajuda a gente também, né?

- -
p.s. Uma pequena observação, por conta de um texto que seo apareceu na minha tela agora, lá no site da FGV:

“As restrições tecnológicas acabam por prejudicar os melhores consumidores da indústria cultural, principalmente, aqueles que pagam corretamente pelos produtos adquiridos.”

Só pro caso de você querer ler mais disso né, vai saber, tem um “mini-curso” de direito autoral por lá.

Réquiem for an e-reader

7 de outubro de 2012 às 16:52

Era uma vez um simpático, compacto, (quase) leve e (meio) prático e-reader devidamente contrabandeado de algum lugado do meio de Las Vegas para essas terras brasileiras – as vezes tão quentes quanto o deserto de caça-níqueis de Nevada.

Como o sistema do pessoal da B&N não aceitava que eu fizesse muita coisa com ele aqui no Brasil – mas pelo menos eu já sabia disso antes, não foi aquela decepção pós-consumo – o nook virou um grande depósito de textos baixados ao redor da internet.

Aquele monte de texto de sete, doze, vinte páginas virava um grande PDF para ser lido longe do computador, em uma tela que não cansava.

Dezenas de ensaios curtos em PDF não precisaram ser impressos em folhas que iam para o lixo.

Alguns poucos livros velhos que alguma boa alma digitalizou e eu nunca encontrei ficaram lá dentro, guardado naqueles poucos gigas de memória.

A performance do aparelhinho deixava a desejar na velocidade, okey, mas aquilo não foi feito prá ser um tablet ou um smartphone então até fazia sentido.

Não, esse aparelho não foi, nem de longe, a melhor compra que eu fiz na vida – esses riscos de ser early adopter sempre existem – mas ainda assim se pagou fácil.

Mas ele chegou ao final de sua existência.

Finito.

Caput.

Adeus, pobre nook. Eu prometo que vou tomar mais cuidado da tela do próximo.

(Ei, Livraria Cultura, cade o Kobo que vocês vão lançar hein?)