
Eu já acabei o livro faz um tempo mas, sinceramente, estava com dificuldades em imaginar como começar a falar de Nevasca.
Mesmo.
(Blogging block, a evolução do writers block. Que beleza são os novos tempos.)
Mas aí, já lendo outro livro, veio aquele estalo não-genial que acontece as vezes: Renascentista. Leonardo Da Vinci.
É isso!
Faz tempo que eu carrego essa admiração apaixonada pelo Léo – sim, tanto tempo que eu já sou íntimo do cara – e do que ele escolheu para a vida.
(Meu primeiro esforço publicador nessas interwebs da vida, inclusive, foi um site – constuído em FRONTPAGE, acredite – sobre Da Vinci. Sim, faz tempo.)
E essa admiração foi, em parte, transferida para esse trabalho do Neal Stephenson.
O que o Stephenson criou nessa obra só pode ter saído de uma cabeça com tendências renascentistas, razoavelmente influenciadas por excessos tecnológicos, pitadas de steampunk, desvios de comportamento e interesses no que existe de pior na cabeça do ser humano.
E tudo isso é elogio.
A mistura de religião, tecnologia, história, ciência, criptografia, matemática, sexo, linguística, distopia e mais um bocado de coisas é, prá minha cabeça, um sinal e tanto dessa tendência à mentalidade renascentista, que pregava tanto essa capacidade do homem de ser conhecedor de praticamente tudo, de várias áreas do conhecimento.
Basicamente um Da Vinci, um pouco interessado em tudo, um pouco mestre em todas as áreas do conhecimento de sua época.
A história toda, descamba, em pouquissimos momentos, para um excesso descritivo até que justificável – nem todo mundo tem que entender co-relações de personagens históricos bíblicos ou o sistema binário, por exemplo – mas, fora isso, suas quase quinhentas páginas passam com a tranquilidade dos grandes, grandes livros.
Escolhido pela Time como um dos 100 maiores romances americanos escritos desde 1923, a história de um mundo basicamente controlado por corporações gigantes, onde franquias-estado tem muito mais poder do que qualquer governo não fica devendo nada a realidade em que estamos, onde empresas tem teóricos PIBs superiores a dezenas de nações.
“Stephenson is that rare—no, unique—thing, both a virtuosic literary stylist and a consummate observer of a brave new world where information flows freely between humans and computers, to the point where the two are no longer easily distinguishable.”
Lev Grossman, Time, 2005
Passada em partes na vida “real”, um bom tanto da história também se desenvolve em um mundo paralelo, virtual, onde as pessoas tem sua segunda existência que, aparentemente, é muito mais interessante do que a vida real em um planeta beirando o caos.
Parece familiar?
Pois é. Second Life rodando com esteróides seria uma boa definição desse metaverso criado em Nevasca.
(Que, aliás, é um nome ruim mas ao menos é uma tradução feial do título original – Snow Crash. Imagina que em portugal eles leram “Samurai: Nome de Código”.)
É difícil dizer mais sobre o livro sem ser superficial ou se aprofundar demais e tornar isso aqui em um resumo então imagine que toda a ação se passa entre uma garota de delivery de documentos – uma FedEx, talvez – de quinze anos, um samurai hacker entregador de pizza, a máfia italiana, imigrantes ilegais em grandes navios vagando pelo mundo e uma busca por um vírus digital que afeta a vida real.
Só isso.
Renascentista, eu falei.
Vale cada página, sim, mas não é prá qualquer um não.