Network Awesome

Eu não sei se você já teve a chance de dar uma conferida na Network Awesome mas, se você nunca passou por lá, tá perdendo coisa fina, acredite.

O princípio por trás dessa TV, se é que posso chamar os caras de “só” uma TV, é criar um portal que funcione – adivinhou – como um canal de TV online, sem programação e horários fixos.

Até aí, nada fora do comum, eu sei.

Mas o que esses caras fazem é procurar pela rede toda por documentários esquecidos, shows raros de artistas que você deveria conhecer, séries antigas, filmes clássicos e material vintage que não caberia em dez posts desse blog.

Contando com a curadoria de mais de 100 pessoas ao redor do mundo nessa busca, o que eles entregam pra você, aí no conforto do seu computador ou da sua TV com acesso a rede, é espetacular.

E, se antes de começar a colaborar com os caras eu era fã, agora então… Vai por mim, dá uma conferida.

(Ah, é por isso que esse post está aqui: hoje foi pro ar a minha primeira colaboração com os caras… E a estreia foi logo com um clássico italiano – ao menos honrei a minha ascendência – de Luchino Visconti.)

Holmes, sempre Holmes

O Marcelo Coelho publicou hoje na Folha – ou aqui - um texto bacana sobre o Sherlock na sua versão século XXI que a BBC criou e está chegando por aqui via box de DVD.

Acredite se quiser, até onde eu saiba, essa maravilha da tevê moderna não interessou nenhum canal. Nada. Zero.

Por sorte, a LogOn – que tem parceria faz tempo com a BBC e é mais inteligente (ao menos é o que parece) que todos os canais abertos e pagos – resolveu trazer legalmente, e em embalagem bacana e com todo o resto, a série para o público brasileiro.

Muito bem, meus amigos da tevê. Continuem provando o quanto vocês são dispensáveis.

(Ahh, quanto ao texto do Marcelo, que tem essa beleza de ilustração acima da Lulipenna, vale a leitura. Alguns dos motivos que ele tem para ser fã de Holmes me parecem estranhamente familiares e as observações sobre as diferenças entre a série da BBC, a franquia de Holmes no cinema e a série dos anos 80 vão muito de encontro com o que já havia, de alguma forma, concluído por aqui.)

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Psychoville: Terror, humor negro e coisas afins

Por algum motivo, existia lá no fundo da minha mente um certo preconceito com a ideia de terrores gravados para a televisão em terras inglesas.

(Okey, acho que também contribui o fato de que eu não sou lá muito fã de terror, mas nesse caso nem sei se é realmente uma série de terror.)

Menos do que preconceito, talvez, o que acontecia mesmo é que a maioria das produções mais segmentadas – de nicho, talvez? – não chegam até nós e ficamos meio que presos, basicamente, a dramas e comédias daqueles cantos do mundo.

E eu já não me recordo como é que fui parar nessa série, mas o que importa é que eu acabei pondo as mãos em Psychoville.

E foi um daqueles casos de vício instantâneo.

Se você é fã de humor negro, muito fã de humor negro e adora incondicionalmente o bom humor negro, essa série foi feita para você, acredite.

Existe um problema em comentar Psychoville que é não estragar as surpresas da série que, lógico, é recheada delas. Senão nem seria lá um terror muito eficiente, convenhamos.

Imagine maquiagens exageradas, atuações ainda mais exageradas, situações absurdas e atores feios e travestidos. Ou olhe a foto abaixo, que resume tudo isso.

Mas tentando não estragar o prazer de quem quiser assistir a série, lá vai: Psychoville conta a vida de cinco pessoas de diversos cantos da Inglaterra que recebem uma carta misteriosa de um chantagista.

Até aí nenhuma surpresa estragada.

E esses cinco são um ricaço cego psicopata, uma mãe psicopata de uma boneca – sim, é isso mesmo -, um serial killer psicopata que mora com a mãe, um palhaço psicopata com toques de Krusty e um anão.

O que acontece entre eles é que é a surpresa que não deve ser estragada; E, embora não tenha um final memorável, são 7 episódios que merecem sua atenção.

Sim, é o tipo da coisa que você deve assistir ainda que algumas palavras nesse inglês cockney de quinta categoria deles passem não-compreendidas.

E não, Psychoville não é para qualquer público.

A série chegou a segunda temporada, que viu a audiência diminuir sensivelmente, e mais sete episódios foram produzidos, além do infalível especial (que nem foi de Natal, mas de Halloween); essa segunda temporada a gente comenta em uma futura aparição por aqui.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 02 de maio de 2012

Do humor inteligente e da graça babaca

Disseram, e eu acredito, que alguém lá do elenco do CQC aproveitou a passagem da Hillary Clinton por aqui para – com muita graça, sutileza e abusando do humor inteligente – oferecer um charuto para a Secretária de Estado dos E.U.A., que estava aqui em visita oficial.

Visita oficial. Relações internacionais. Palácio do Itamaraty.

O ator – porque aqueles seres NÃO são repórteres, lembrem-se disso – que estava lá gritou para a Hillary, atrapalhou o trabalho de emissoras – brasileiras e estrangeiras – que estavam cobrindo profissionalmente um evento sério.

Capisce?

Quer fazer graça, faz no hotel de um artista. Faz na praia com um ator decadente. Faz na zona ou na parada gay, usando tão bem aquilo que o humor brasileiro sabe usar para ridicularizar e constranger as minorias…

Será mesmo que, em algum momento, eles realmente acharam isso genial durante uma reunião de produção do programa? (Supondo, é lógico, que aquele tipo de programa seja minimamente produzido no quesito conteúdo).

Na minha perspectiva terceiro-mundista, subdesenvolvida e colonizada isso é tão engraçado quanto oferecerem um tapa-sexo de folha de bananeira para a Dilma durante uma passagem dela por Washington.

Sério que esse é o expoente máximo do humor ácido, da sátira política brasileira?

Sério Tas? Quando é que você deixou de ser o ponto de referência do programa que era no Saca-Rolha, entrevistando todos os tipos possíveis ao lado do Lobão e da Mariana Weickert?

Eu sei, você já assumiu que cria uma persona na tela, que não é aquilo. Okey, todos temos dezenas de personas que vestimos o dia todo mas… Tudo é tão comercializável assim?

Pelo jeito sim…

Além de tudo, vão lá mexer com alguém que não faz a menor ideia de quem diabos são vocês. É sério, a audiência de vocês é alta, vocês tem muitos patrocinadores mas a Band não é transmitida na Casa Branca, no Pentágono…

Acreditem, a Hillary não assiste vocês. Nem o Obama.

Quando foi que essas pessoas equalizaram no mínimo possível o humor para competir na mediocridade com o Pânico?

Eu admito que não assisto o programa e isso já indica que não é meu tipo de conteúdo predileto… Mas sim, já assisti.

E ele prometia mesmo ser inovador. Tinha chances para dar um respiro no humor mas… Ainda que sendo um dos cord cutters dessa cidade, nada me faz ficar na frente da TV para algo como o CQC.

Que me desculpe o Dave Mustaine pela adaptação tosca, mas não consegui pensar em nada melhor: Shit sells, but who’s buying it? Aparentemente, centenas de milhares de pessoas e patrocinadores, domingos e segundas, todas as semanas. Ainda mais que, agora, que nem precisam trocar de canal.

Mas, citando mais uma vez uma tuitada da mesma pessoa, sobre esse assunto, a defesa vai ser sempre a mesma:

Ah, é humor. Perdão. Humor pode, né?Humor pode tudo. Humor não deve nada a ng. Humor pode até não ser engraçado. Pode até ser não humor.

Parabéns a todos os envolvidos, dos dois lados da tela.

E que Seinfeld, Monty Python, The Office, Futurama, Coupling, My Name Is Earl e afins continuem com reprises ad infinitum, e que as cenas do esquete do Fábio Renato sejam mantidas na rede para não me esquecer de que, ainda assim, se faz humor para TV.

Para não ver: Downton Abbey

Como não podia deixar de ser, mais cedo ou mais tarde a gente iria falar – também – daquilo que não caiu nas nossas preferências: E que tal irmos de Downton Abbey?

Realmente não acho que a série seja ruim, mas esses dias, assistindo a primeira temporada de Deadwood veio o click. Para mim, aquela história da decadência aristocrática britânica e criadagem conspiradora é tão chata quanto a exploração de ouro, a prostituição e as vidas no velho oeste americano são insuportáveis para a minha mulher.

Como reconstituição de uma época e dos hábitos, a série é bem cuidada e, se não chega a ser um primor, não é por falta de boa vontade da produção, aparentemente.

Mas para brasileiros é impossível assistir aquela trama e não pensar em novelas nacionais, sejam elas as superproduções de época da Globo ou as tentativas, bem intencionadas ao menos, da Record e do SBT.

As voltas do enredo, a dramaticidade excessiva e as batatas na boca – ah, as batatas que insistem em enfiar na boca dos atores ingleses que fazem personagens de época – tudo contribui para criar um programa daquele tipo que te tortura na frente da TV.

Se em Deadwood a história é lenta, arrastada, ao menos nos dois primeiros episódios as coisas acontecem; no caso de Downton Abbey, o que acontece é tão marginal que, me desculpem os fãs da série, é mais empolgante ver a vida dos seus vizinhos chineses no Brás.

Algum tempo atrás, um texto na Folha perguntava por que nenhum canal pago do Brasil ainda havia comprado os direitos de exibição. Eu, pela descrição de série de época, início do século, chegando na primeira grande guerra – admito – fiquei seduzido e fui atrás.

Se tivesse me dado ao trabalho de ler a opinião do Marcelo Rubens Paiva no Estadão naquela mesma semana teria economizado um bom tempo:

“Com muita futrica e casamento. É série de menina.”

Mas quem resumiu tudo em uma frase simples limitada a seus 140 caracteres foi o @demonbaby, um ilustrador que trabalha, entre outros, para o Nine Inch Nails:

Just finished watching season one of Downton Abbey with my girlfriend and now I have a vagina.

E, por favor moças, não se sintam ofendidas. Caso vocês sejam fãs dessa série, ok… Agora, se aparecer uma mulher fã de Deadwood ou um homem fã de Downton Abbey, aí sim eu adoraria de ouvir a opinião deles.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 17 de abril de 2012

Black Books e o humor dos ingleses

A indicação veio de longe. Precisamente do meio de Minnesota. E como eu confio em quem tem bom gosto musical, fui atrás dessa pérola britânica da incorreção social que só podia mesmo ter saído lá do fim dos anos 90.

Black Books lembra, no principio, as comédias que o Steven Moffat criou.

(Para quem não conhece, Steven Moffat é quase um J.J. Abrams da TV inglesa. O cara tá envolvido em Sherlock, Coupling, Doctor Who, Jekyll e outras várias produções de sucesso nos domínios da rainha.)

Mas já nos primeiros minutos dá para perceber que a pegada de Black Books é diferente.

Se o humor de Coupling é acessível para (quase) todos, Black Books parece exigir que você, telespectador, tenha uma carga de mau humor, sarcasmo e ironia muito acima da média.

A série toda se baseia na vida de três personagens: Bernard Black, dono de uma livraria, Manny, funcionário nessa livraria, e Fran, amiga de Black.

Black – interpretado por Dylan Moran, criador da série – não está nem um pouco interessado em vender livros. A cena clássica da série é composta dele, sentado entre cigarros e garrafas de vinho e absinto, lendo e afugentando clientes.

Aliás esse parece ser o real motivo dele ter a loja: o dono da Black Books demonstra um prazer todo especial em afugentar seus clientes, se negar a vender livros e, em uma das melhores cenas da primeira temporada, pagar para que o cliente levasse os livros embora apenas para que ele não tivesse o trabalho de vendê-los.

Como toda sitcom que se preze, os episódios tem cenas curtas e histórias fechadas e independentes, mas acompanhar a série faz diferença para “educar” os sentidos quanto ao humor (ou a falta de humor) que Black e Fran apresentam em relação a tudo.

Enquanto ambos parecem querer fugir do mundo – e são nessas ocasiões que aparecem as melhores cenas – Manny, o empregado da livraria, é o mais-que-necessário contraponto a todo protagonista de comédia.

Manny se incomoda com a falta de higiene do lugar, a bagunça dos livros, o descontrole das finanças, o mau humor de Black.

Mas isso tudo acima não consegue – nem de longe – descrever o ambiente da série ou as situações que surgem ao longo de cada episódio.

A série durou três temporadas, quase um padrão para as curtas séries britânicas, e não sei se eles mantém o fôlego nas próximas duas… Mas a julgar pelo que está escrito por aí, a série foi tirada do ar no seu auge.

Mas sobraram, ao menos, 18 episódios para a posteridade.

Texto originalmente publicado na TV Magazine, 29 de março de 2012