Should I Stay or Should I Go?

Na semana da grande fuga programada por um sem-número de facebookers, a mídia foi lá e aproveitou – não sem razão – para discutir a privacidade 2.0.

Por motivos óbvios – o público alvo do Link teoricamente é mais tech/nerd que o da Época – a pegada das matérias é diferente. O suplemento do Estadão discute o tema do ponto de vista da privacidade versus Mark Zuckerberg;  a Época vai na linha mais explicativa de redes sociais, dicas de quem seguir e afins.


Material extenso pode ser lido – por enquanto – no Link e na Época.

(Quase) Todo mundo  tem um perfil qualquer em uma rede qualquer. Alguns tem perfis em umas duas ou três. Poucos tem perfil em absolutamente todas as redes e serviços que aparecem a cada semana. Ainda assim, estranhamente, o tema da invasão de privacidade não parece fazer nem sombra de preocupação na cabeça das pessoas.

Por algum motivo, parece que essa coisa de vida 2.0 não chega a vida 1.0 real em que a gente nasceu. Nem pensar em dar meu RG ou endereço para aquela promotora da Abril querendo vender assinatura da Veja no meio da Avenida Paulista, mas qual o problema em dar nome, endereço, RG, CPF, email, coordenadas de geoposicionamento, número do cartão de crédito, foto e todo o resto para uma tela de computador, não é?

Até hoje existe um perfil meu perdido no Orkut – não lembro a senha e isso me desanima a cada tentativa de apagá-lo – (Consegui. Um a zero prá mim. Orkut já foi, só falta o resto) Tenho Facebook, Twitter, Last.FM, Foursquare, Tumblr, Vox, Picasa… E não faço a menor idéia de que dados concordei em dividir quando cliquei naquele inofensivo botão de “Agree”.

Alguns desses serviços digitais – Posterous, por exemplo – chegam ao capricho de simplesmente não permitir que você delete a sua conta sem uma solicitação longa por email, que demora dias a ser respondida e, quem sabe, pode até ser negada. O que você faz?

Desiste. E nessa sua desistência e na desistência de mais alguns milhares, seus dados ficam lá e são disponibilizados e depois juntados a outros milhares quando essa companhia se juntar a outra e mais outra e, quando se passaram apenas alguns meses, você não faz mais a menor idéia de quais dados seus estão nas mãos de quem.

E depois disso tudo, você acha que com textos e movimentos de debandada e campanhas e matérias, as pessoas – animais sociais, quase sempre em busca de algum contato através desse aparelho que toma todas as nossas horas – vão abandonar o Facebook?

Nem eu.

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UPDATE: Na passagem de mini-férias pela terra da prata, tive contato com a única coisa boa que se originou no Facebook: Uma propaganda local para o Speedy. Deu de dez nas propagandas da Telefónica em São Paulo.

Ninho Vazio

Assistir Ninho Vazio serviu, de início, para confirmar uma opinião: Porteños fazem cinema infinitamente melhor que brasileiros.

Não, essa minha opinião não é nova e já foi mencionada por aqui. Mas não tem como não sentir-se obrigado a afirmar e reafirmar a superioridade artística das películas argentinas. Até quando não é um vencedor de Oscar e sim um filme mediano, as diferenças – à favor deles – são assustadoras.

As únicas caras conhecidas da obra – ao menos para um não especialista em cinema como eu – são Inés Efron, do ótimo XXY, e Cecília Roth, famosa por esses lados do Rio da Prata, entre outros, por Epitáfios. E isso contribui bastante para o resultado final do filme.

Ver aquele curto desfile de caras comuns, numa história comum, talvez seja o principal motivo para encarar o filme como uma história banal. Não dá para acreditar em uma história de um casal qualquer quando as duas caras estampadas na tela estão diariamente na sua TV nas novelas e propagandas.

Apesar das escapadas para o excessivamente imaginativo – como a cena da escada rolante e as coreografias dentro do shopping – a história é banal. E isso é ótimo para ela.

As cenas discretas de olhares trocados, a ausência de uma trilha sonora marcante, a transição inesperada entre Argentina e Israel, a relação desenvolvida entre as personagens principais e seus interesses afetivos, tudo colabora para pouco mais de uma hora e meia de bom entretenimento.

Aproveita esse Telecine Cult dando sopa na sua TV e vai atrás de uma das exibições. Vale muito mais que parar num AXN e re-ver outro crime ser solucionado.

O segredo dos teus filmes

Na época do Oscar, quando O segredo dos teus olhosfoi premiado com o bonequinho dourado de melhor filme não-hollywodiano, uma das pequenas coincidências da vida me fez estar em Buenos Aires.

Você lembra a bobagem nacionalista continuada que aconteceu com a indicação da Fernanda Montenegro para o Oscar de melhor atriz estrangeira? Ou, pior ainda, aquele tanto de indicações de Cidade de Deus?

Pois então multiplique isso pela paixão porteña por futebol e some a isso o fato de que os argentinos, eles sim, ganharam o Oscar. Agora imagine o clima pé no saco de onipresença do assunto em TVs, jornais, bancas de revistas… Fica bem fácil entender o porque de um certo fastidio meu com a obra.

Ricardo Darin como Benjamín Espósito

Vencida essa resistência inicial, acabei indo parar no Reserva Cultural – desta vez com ar-condicionado funcionando – para assistir ao filme.

Se você espera um review daqueles que contam um pedaço do filme ou pelo menos que situe o leitor – você – no que é a obra, a web está cheia deles. E esse não é mais um desses textos.

Esse post é só uma tentativa minha de provar que toda a inveja que a gente – ao menos eu e mais um bom número de semi-cinéfilos – sente do cinema argentino se justifica:

  • Os atores deles, mesmo quando estão em uma atuação carregada de canastrice, são muito bons;
  • As histórias deles são infinitamente mais legais do que 99,99% dos lixos que a Globo Filmes produz;
  • Eles também dependem de financiamento estatal, incentivo e patrocínio para filmarem, mas fazem isso muito melhor: A série de logotipos patrocinadores que abrem o filme passam quase despercebidos, ao contrário daqueles grafismos animados em 3D ridiculamente exagerados da Petrobrás ou as cenas de merchandising vergonhosas

E, para terminar:

  • Das (pouquíssimas) obras recentes que assisti, as minhas observações só não se aplicam ao fantástico “O cheiro do ralo”
  • “O segredo dos seus olhos” é sim merecedor das premiações – Oscars e afins – que recebeu. Vale a grana do cinema, vale o tempo de sala escura, vale sobretudo como modelo a ser seguido. Não sou crítico de cinema mas adoraria que as produções brasileiras tomassem um rumo com mais Ricardos Darins e Juans Josés Campanellas.

Tá cada vez mais prá México

“Em vez de inventar desculpas – assimetrias, déficit estrutural, desequilíbrio comercial – para justificar o crescente distanciamento entre os dois países, ressaltei, de forma cândida, as vantagens para a Argentina de uma relação política e comercial aberta, sem ressentimentos nem restrições com o Brasil. Referindo-me à recente declaração da presidente Cristina Kirchner de que a Argentina quer ser sócia, mesmo menor, do Brasil, concluí, para perplexidade geral, que a Argentina apenas teria de resolver o que prefere ser em relação ao Brasil: se um México ou um Canadá.”

Rubens Barbosa no Estadão.

Na verdade, nem prá ser our own private Mexico (B-52’s reference intended) a Argentina serve. O México deu origem a Femsa, teve por décadas muitas das fábricas americanas como Kodak, Duracell e afins, produz tequilas das melhores.

E a Argentina quando muito consegue um tanto de vinhos e carne. E conseguem tem um presidente pior que o nosso – e olha que isso é páreo duro.

Latinos

Não é que nada que se produz no Brasil para TV me agrade. E nem que seja mais fácil criticar o que é feito aqui. Mas só para não perder o hábito…

Talvez seja só um problema de identificação. O cérebro está tão habituado a pensar nesse atores como coisa de novela que, quando aparece um Marcos Palmeira ou uma Maria Luiza Mendonça na TV, a associação com a Globo é imediata. E isso não quer dizer que Mandrake seja um programa ruim. Está bem acima do que TV verde-e-amarela costuma produzir.

Ainda assim, ao assistir algo feito aqui perto, por nossos irmãos argentinos, a sensação de que ainda falta um tanto para chegar num lugar de destaque é imediata.

Talvez o roteiro deles não tenha sido escrito por algum integrante de banda falida de rock, e isso ajuda, mas Epitáfios é muito mais série do que Mandrake em vários sentidos.