Últimas Palavras

4 de janeiro de 2013 às 9:00

“Impressionante como coração, pulmões e fígado resistiram: eu teria sido mais saudável se fosse mais doentio.”

Fragmentos, Capítulo 8

(Okey, não é bem uma leitura de férias ou um livro pé na areia. Mas até aí, quem disse que eu sou uma pessoa pé na areia?)

Ao longo dos anos, meu contato com o que Hitchens escreveu foi com artigos e não com livros; uma hora isso iria ter que mudar e – porque não? – começar com o último livro que ele escreveu?

Para quem está acostumado com o tipo de raciocínio, com as ideias, com certa intransigência e – eu não sou fã de descrições sinestésicas mas… -  palavras amargas e azedas, não é um livro que apresente nada novo, claro, mas encerra bem uma carreira como a de Hitchens.

Hitchens

São poucas as páginas, assim como foram poucos os meses entre o diagnóstico do câncer e a morte dele, mas dessa forma, em poucas páginas, acompanhar um cérebro desses, consciente de seu final, é uma oportunidade a ser aproveitada.

Entre dezenas de outras pequenas qualidades, o livro tem um dos melhores primeiros capítulos que eu lí em muito tempo – agradecimentos também ao tradutor – e, se te faltar vontade de ler ele todo, os dois primeiros parágrafos te fazem, caso você tenha um pingo de humanidade, ficar com um nó na garganta.

Ainda que com sua torta opção conservadora no fim da vida – e isso é positivo ou negativo de acordo com suas convicções, mas não invalida a obra e, sim, pode ser compreendido -, Hitchens foi um dos grandes, grandes, GRANDES polemistas-pensadores dos nossos tempos: sorte de quem o teve por perto, comentando os temas que nos são tão cotidianos.

Nessas 70 ou 80 páginas, o que se percebe de Hitchens é alguém em certa quantia assustado – não podia ser diferente – mas apenas dentro do que faz sentido a sua figura; um autor que reafirma suas convicções, um ser humano cheio de erros e acertos a serem sublinhados.

Durante suas páginas, Últimas Palavras vai ficando mais calmo, mais ciente de seu final, mais entregue; por isso que, quando Hitchens apresenta, logo no segundo capítulo, algo como:

“Quem mais acha que Christopher Hitchens ter câncer de garganta terminal [sic] foi a vingança de Deus por ele usar sua voz para brasfemá-Lo? [...] Ele vai se contorcer de agonia e dor e se reduzir a nada, e depois ter uma horrível morte agonizante, e ENTÃO vem a parte realmente divertida, quando ele é mandado para sempre para o FOGO DO INFERNO para ser torturado e queimado.”

ao que responde com, lindamente, com:

“Minha garganta até o momento não cancerosa – apresso-me a garantir a meu correspondente cristão acima – não é de modo algum o único órgão por meio do qual blasfemei.”

devemos aproveitar, sim, como os últimos rounds de um pensador combativo, um ateu sem desvios em sua falta de crenças, um autor a ser lembrado.

 O epílogo, curto, é de Carol Blue, esposa de Hitchens; dessas poucas páginas se tira algo curto que é a cara de dele:

Todas as vezes Christopher tem a última palavra.”

 Então que seja assim: também dos fragmentos que ficaram incompletos e encerram o livro:

 “Se eu me converter, é porque é melhor que morra um crente do que um ateu.”

Dawkins e o “design inteligente”

10 de maio de 2012 às 10:00

Uma longa citação alheia, só porque faz tempo que isso não ocorre por aqui e porque eu ainda estou – sim, o livro é trabalhoso – lendo essa obra:

“Ainda há muito trabalho a fazer, é claro, e tenho certeza de que ele será feito.

Esse trabalho jamais seria feito se os cientistas ficassem satisfeitos com um padräo preguiçoso como o estimulado pela “teoria do design inteligente”. Esta é a mensagem que um “teórico” imaginário do design inteligente poderia transmitir aos cientistas:

“Se vocês não entendem como uma coisa funciona, não tem problema: simplesmente desistam e digam que Deus a criou.

Vocês não sabem como o impulso nervoso funciona? Tudo bem! Não entendem como as lembranças säo depositadas no cérebro? Excelente! A fotossíntese é um processo desconcertantemente complexo? Maravilha! Por favor não saiam trabalhando em cima do problema, apenas desistam e apelem a Deus.

Caro cientista, não estude seus mistérios. Traga seus misterios a nós, pois podemos usá-los. Não desperdice a ignorância preciosa pesquisando por ai. Precisamos dessas gloriosas lacunas para o último refúgio de Deus”.

Santo Agostinho disse de forma bem clara: “Existe outra forma de tentaçäo, ainda mais cheia de perigo. É a doença da curiosidade. É ela que nos leva a tentar descobrir os segredos da natureza, segredos que estão além de nossa compreensäo, que nada nos podem dar e que nenhum homem deveria querer descobrir” (citado em Freeman, 2002).”

Richard Dawkins, em Deus, Um delírio.

Pois é. Essa coisa de educação, cultura, raciocínio independente… Isso é um perigo.

Ou, como resume muito bem uma daquelas imagens (citando o próprio Dawkins, lógico) que aparecem pela rede e o tumblr faz o favor de nos apresentar:

Ricky e aquilo que não existe

16 de março de 2012 às 12:17

“Então o que a pergunta “Por que você não acredita em Deus?” realmente significa? Eu acho que quando alguém pergunta isso a pessoa está na verdade questionando sua própria fé. De certo modo, ela está perguntando “O que faz de você alguém especial? Como você não passou pela mesma lavagem cerebral que o resto de nós? Como você ousa dizer que eu sou um idiota e não vou pro céu? Foda-se”. Sejamos sinceros, se uma única pessoa acreditasse em Deus, ela seria considerada muito estranha. Mas, por ser uma visão popular, ela é aceita. E por que é uma visão tão popular? Isso é óbvio. É uma proposta atraente. Acredite em mim e viva para sempre. Novamente, se fosse apenas um caso de espiritualidade, estaria tudo bem.”

Ricky Gervais, em Por que eu sou ateu,a tradução do
Viagem Literária para Why I’m An Atheist, do WSJ.

É absolutamente impossível retirar apenas um trecho do texto; esse pedaço acima é tão bom quanto, por exemplo, este:

“É quando a crença começa a infringir os diretos de outras pessoas que eu começo a me preocupar. Eu jamais negaria o seu direito de acreditar em um deus. Eu só preferiria que você não matasse pessoas que acreditam em um deus diferente. Ou apedrejasse pessoas até a morte porque o seu livro de regras diz que a sexualidade deles é imoral. É estranho que qualquer um que acredita que um ser todo-poderoso, onisciente e responsável por tudo o que acontece também gostaria de julgar e punir pessoas pelo que elas são. Pelo que eu compreendo, o pior tipo de pessoa que você pode ser é um ateu. Os primeiros quatro mandamentos batem nessa tecla. Existe um deus, eu sou ele, ninguém mais é, você não é bom e não esqueça disso (não assassine alguém só recebe uma menção no número 6).”

Mas eu acho que a real genialidade das pessoas que se destacam é, em grande parte, o seu poder de resumir idéias, ser conciso, preciso.

E se isso vier com ironia, tanto melhor:

“Quando confrontado por alguém que enxerga a minha falta de fé religiosa com desprezo, eu respondo: “Foi assim que Deus me fez”.”

Fidelização? Milhas de vantagem nas igrejas…

19 de dezembro de 2011 às 9:21

“Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

[…]

Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo.”

Eliane Brum, A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico, na Época.

Christopher Hitchens

16 de dezembro de 2011 às 13:49

Ele escreveu um bocado de livros, ele tinha citações espetaculares sobre os temas mais interessantes, ele era notívago, ele – isso é dedução minha – era alcoólatra, ele era boêmio, ele destruía neurônios com seu estilo de vida e, ainda assim, era mais racional, preciso e direto do que eu, você e 70% da população da terra somos ou seremos.

E uma frase curta, direta, precisa – dita por ele, mas pelo que consegui achar, não é uma frase original dele -, diz mais e resume o que era o pensamento de Christopher Hitchens do que muitos textos que apareceram hoje.

“That which can be asserted without evidence, can be dismissed without evidence.” 

E ele morreu.

God prefers atheists

3 de maio de 2010 às 11:59

Ou seja, é mais fácil eu entrar em algo como o céu do que um papa, certo?