Craig pela manhã

Começar o ano, abrir a porta e dar de cara com o Craig Thompson na capa do jornal.
Não sei não, mas parece um baita sinal positivo para 2012.

Começar o ano, abrir a porta e dar de cara com o Craig Thompson na capa do jornal.
Não sei não, mas parece um baita sinal positivo para 2012.
Durante toda a infância, eu apresentei uma série de compulsões. Balas coloridas que eu gostava de comer por ordem de cor, por exemplo. E me cercar de copos e talheres na mesa, na hora de jantar, era quase obrigatório. Mas o mais compulsivo dos meus comportamentos, eu assumo, era a leitura.
Eu lia muito. Lia horrores. Lia de tudo. E me surpreende cada vez mais a quantidade de vezes que alguma notícia ou uma conversa sem muito propósito despertam memórias que foram criadas por essas leituras.
Essa manhã, por exemplo, ao abrir o Caderno 2 e dar de cara com uma pequena nota da morte de Peter O’Donnell, a reação foi automática. Ao ler sobre o nome da mais conhecida personagem de sua criação, Modesty Blaise, eu pensei “A mocinha atômica”.
Isso não faz sentido? Então é porque quadrinhos de espionagem talvez não sejam parte de sua criação. Por algum motivo, em algum manual Disney da minha infância, estava escrito “Modesty Blaise, a mocinha atômica”, e isso ficou guardado lá no fundo da memória até hoje pela manhã.
O nome completo da série não é esse. E uma busca no Google, que obviamente eu fiz, mostra que a referência de mocinha atômica não é constante. E ainda assim era desse jeito que ela estava na minha cabeça.
Modesty Blaise, a heroína sensual e arrasadora de Peter O’Donnell nos traços de Eric Romero.
Não sou especialista em quadrinhos, menos ainda em Modesty Blaise. Mas achei digno de nota agradecer enormemente a inexistência da internet naquela época. Se não fosse por isso, enormes partes da minha cultura pop inútil – que justificam esse site, por exemplo – não existiriam.
E não, eu não acredito que esse acesso fácil, essa hiperconectividade e afins sejam páreo para um livro, a imaginação e a memória de uma criança. Tivemos uma sorte enorme de pegar a fase certa dessa revolução…
Entrevista do fotógrafo Kevin Cummins ao Caderno 2, sobre o lançamento desse livro que 9 entre cada 8 pessoas de bom gosto vão por nas listas de presentes de Natal. Ao menos na terra da rainha.
O Roberto DaMatta, em artigo publicado na semana passada no Estadão e n’O Globo, fez um daqueles textos que as pessoas – essa pessoa ao menos – quererem colocar num quadro, na porta do quarto, no cartão de visita e mandar indiscriminadamente por email.
Começa por mostrar, mais uma vez, a infelicidade que é termos quem temos como chefe da nação: muito já se disse sobre a ignorância de amplo espectro do tal cidadão, mas o tema não se esgota.
Mas o ouro desse texto está nos desdobramentos que DaMatta tira da azia que Lula sente ao ler.
A análise do modus operandi da vida brasileira, em casa e em sociedade, é de uma precisão que faz brilhar os olhos de um jeito que só os bons textos, simples na forma e exatos em seu conteúdo, conseguem.
Por ser uma boa descrição do que passam os que adquirem o solitário hábito da leitura em um país de traços culturais e tradições que te obrigam a socializar em execesso, comemorar em execesso, confraternizar em excesso, o texto faz todo o sentido a cada uma de suas linhas.
Ainda que essa não seja sua vontade, a força do viver-alegre tropical puxa o recluso leitor, o cidadão reflexivo, o filósofo (na raiz do conceito de filósofo, o amante do conhecimento, bem entendido) para a convivência ou então o trata como um pária, um louco, um cidadão deslocado.
Faz sentido se você lê e gosta de ler. Faz sentido se você não enfia a cara no prato de comida vendo novela dia após dia. Faz sentido se ao menos por algum tempo você se dá ao trabalho de pensar ao invés de seguir o pensamento alheio.
E se você não gostasse de ler (independente da qualidade do que estou escrevendo), a essa hora já não estaria mais lendo e teria migrado para algum blog bem mais engraçado.
Prometo nunca mais pedir que ninguém leia nada. Mas leia isso.
Aqui se voce tiver acesso ao Estadão Digital - jabá – ou aqui.
“O que fica sem destaque nesses livros é a observação de que até mesmo pessoas não-religiosas atribuem sentidos diversos à palavra Deus, como a qualquer palavra genérica e antiga, e de que isso é um direito delas. Para umas, é justamente a aceitação de que não podemos explicar tudo, de que somos pequenos diante dos mistérios e da passagem do tempo, etc. Minha palavra para isso é Natureza. Para outras, Deus é uma crença que ajudaria a fortalecer valores morais, em especial a humildade e a responsabilidade, numa era em que há tanto materialismo e egoísmo. Chamo a isso Ética. E outras defendem a noção como forma de consolo ou esperança, necessária para situações de desespero como a do pai de família bêbado e agressivo que encontra conforto na palavra de Jesus. Meu nome para isso é Ânimo – ou boa vontade, ou bom humor, ou qualquer coisa que designe disposição de continuar vivendo e superar obstáculos.”
Daniel Piza, 20/08, Estadão.com.br – Aqui