Facistóide

“Estudos Avançados” pressupõe, como expressão ou como nome de publicação periódica de uma universidade, a marcha do conhecimento e da prática para a frente, sempre. O recente número 67 da publicação de tal nome desmente o pressuposto, apesar dos dossiês “Crise do Congresso” e “Claude Lévi-Strauss”, que proporcionam várias leituras excelentes.

Quando se acentuou a indignação com a censura judicial ao “Estadão”, e o próprio requerente da medida, Fernando Sarney, suplantou a Justiça e providenciou a extinção do policialismo, a censura é elevada a método de edição em “Estudos Avançados” (sic). Foram censuradas partes de dois trabalhos e censurado integralmente um outro, este do presidente do PPS, Roberto Freire.

Os pormenores aumentam o pasmo com a censura cultural e política em um periódico editado por universidade, e logo a USP. O patrono e executante da censura é não só professor universitário mas também membro da Academia Brasileira de Letras: o imortal, agora com mais certeza disso, Alfredo Bosi. Tão convicto de sua medida, que não suportou mais, como editor, a presença do editor executivo já de muitos anos, Marco Antônio Coelho, demitido por ponderar contra os cortes.

“Estudos Avançados” pelo método retrógrado, eis uma persistência a mais.

Janio de Freitas – 29/12/2009 (via MP)

Pois é, censura-se de tudo. Censura para jornais no Brasil, censura para revistas acadêmicas da USP, censura para tudo e todos na Venezuela, censura igualmente ampla no Irã.

Censuram pelo simples fato de discordar, censuram para marcar posição, para dar recado, para não deixar passar batido.

Censuram porque podem e são amigos das pessoas “certas”, censuram porque na maioria das vezes as pessoas pouco se importam.

E quem acha que 2010 vai ser diferente?

“Estado” é apreendido

Em reunião mantida ontem com diretores de jornais, rádios e televisões, o general Manoel Carvalho de Rodrigues Lisboa, comandante do segundo exército, referiu-se ao que qualificou de incidente com o jornal “O Estado de S. Paulo”, cuja edição – e a do “Jornal da Tarde” – foram parcialmente apreendidas na madrugada e na tarde de ontem, por agentes da Polícia Federal.

O Estado de S. Paulo
Sábado, 14 de dezembro de 1968

Aconteceu em 1968, mas não soaria estranho acontecer hoje em dia. Se os amigos do Lula, do Sarney, do Collor, do Renan e afins conseguem censurar um jornal como o nosso, – sim, falo isso com a propriedade de quem trabalha lá e tem um puta orgulho da instituição que paga meu salário e do que ela já fez e faz pela democracia – logo logo param as rotativas, param as transmissões de rádio e TV.

A Plebe Rude, lá nos anos oitenta, já disse com propriedade:
Oposição reprimida, radicais calados, (…) Tudo para manter a boa imagem do estado.

The Sarneys

O grande erro de cálculo da decisão da família Sarney de proibir, por via judicial, o jornal “O Estado de S. Paulo”, seu portal e todas as empresas do grupo de publicarem informações sobre processos que correm em segredo de justiça contra Fernando Sarney, o filho responsável pelos negócios da família, foi o de imaginar que pudesse usar dos mesmos artifícios que tem à sua disposição no Maranhão e no Amapá para calar a mídia. Felizmente a família não estendeu os seus tentáculos para fora dos dois Estados – Maranhão, o berço político da família; o Amapá, o Estado escolhido pelo atual presidente do Senado, José Sarney, há quase 16 anos, para se candidatar sem riscos de derrota logo que saiu da Presidência da República.

FAMÍLIA SARNEY ERROU DE CÁLCULO AO ACIONAR JORNAL
Editorial de 05/08/2009, Valor Econômico