Page One: Inside The New York Times

13 de dezembro de 2011 às 18:30

Ainda que você não trabalhe em um jornal – ou trabalhe em um, mas fora da redação, com é o meu caso – são enormes as chances de que você tenha, pelo menos, um respeito, uma admiração ao peso que tem o New York Times. (Ou a idéia romanceada do NYT, ainda não sei o que pesa mais…)

Por algum motivo, essa empresa deixou de ser um ícone apenas para seu segmento e se tornou uma marca global em inúmeras frente. A escolha das fontes, a diagramação das páginas, tudo leva você a lembrar instantaneamente do NYT.

E isso é prá lá de merecido; só é assim hoje porque editores, donos, jornalistas e entregadores passaram décadas e décadas construindo um dos mais respeitados nomes do jornalismo internacional. E, se hoje tem um HuffPo por aí dando trabalho aos donos das velhas rotativas, pense bem se você conseguiria falar de um blog – por melhor que seja – da mesma forma que solta o New York Times em uma frase, seja na Suécia, na Venezuela ou no Uzbequistão.

Page One: Inside The New York Times não é um documentário sobre como se faz jornal nos anos 00 ou como se fazia jornal nos anos 1940 ou a história de um único veículo ao longo dos anos. Page One é a história de como se faz o New York Times em 2011. Ponto.

Os criadores do documentário ainda se permitem voltar no tempo, passear rapidamente sobre as glórias do Times e de outros jornais, os que continuam e os que já desistiram, mas essencialmente retratam o que é, hoje, fazer este jornal diário.

E a escolha de acompanhar alguém como David Carr, que escreve no próprio jornal sobre o próprio meio, parece ter sido o melhor dos cenários possíveis. Com altos e baixos, sem muito medo de falar o que está pensando, a história de um jornalista de mídias com passado de pai solteiro e viciado combina muito com o momento que o jornalismo impresso e a mídia toda, de microblogs a editoras, atravessa.

Não responde nenhuma pergunta, não quer prever o futuro e, por isso mesmo, vale cada segundo.

Joe Strummer ou NY77?

11 de julho de 2010 às 22:49

Um dos muitos pontos positivos dos finais de semana – prolongados, de preferências – é conseguir usar o tempo longe do trabalho para se livrar um pouco do peso e da culpa que provocam as pilhas e pilhas de material que acabam se acumulando a espera da sua atenção intelectual.

Material, nesse caso, são livros, DVDs, revistas, discos, PDFs, torrents e todo o resto de produtos que a gente compra, aluga, empresta e baixa com certeza de que vai ler suas 800 páginas em um mês ou ver o filme naquela noite mesmo.

É claro que isso não acontece.

O padrão é acumular cada vez mais e mais páginas não lidas, frames não assistidos e arquivos não abertos, aumentando enormemente a culpa a cada novo produto que compramos somente prá ser somado a essa coleção. Colecionismo ao invés de conhecimento.

Feita essa auto-crítica inicial, esse 9 de Julho – tão caro a nós paulistas – valeu para tirar da pilha ao menos dois DVDs: NY77 – The Coolest Year In Hell e The Joe Strummer Story.

Dois documentários, duas histórias cheias de música, dois discos de pouco mais de uma hora de duração. E esses são os únicos pontos em comum nas obras.

Enquanto a obra do VH1 se propõe a tratar do ano seminal para a Nova Iorque que existe hoje, a história de Joe Strummer é a ovação pura e simples de uma carreira.

Enquanto NY77 abusa dos grafismos de ótimo gosto, de uma linha-mestra incrivelmente bem traçada e de ótimas entrevistas, o documentário inglês se vale somente das entrevistas com as pessoas que participaram da trajetória de Joe Strummer, do Clash, dos Mescaleros.

Enquanto a história de Nova Iorque se vale de política e dos problemas sociais para contextualizar e dar razão ao que acontecia em 77, a história de Strummer é contada de forma superficial por seus ex-companheiros e “amigos”.

Não colabora muito para o documentário inglês a vergonhosa tradução/adaptação da obra para o português, deslizando repetidamente em uma mistura de português brasileiro e de Portugal, com passeios pelo espanhol e momentos de pura e simples má-vontade ou falta de conhecimento sobre o assunto. Algo como se a obra tivesse sido traduzida por um expert em música clássica da produtora.

Talvez tenha valor pelas cenas raras, especificamente a gravação do último encontro no palco de Strummer com Mick Jones. Talvez complemente uma biblioteca punk que já tenha The Future Is Unwritten. Mas é, de longe, uma obra que teria mais a dizer sobre a história do Clash – e talvez essa história contasse com mais propriedade – do que sobre Joe Strummer.

Já NY77 tem também seus deslizes, mas cumpre com muito mais propriedade sua proposta de narrar os meses que deram novo rumo a cidade que já tinha a incrível vocação de centro do mundo pop.

As idas e vindas entre política, rock, disco music, hip hop e comportamento social garantem um fôlego ímpar à obra. As entrevistas com personalidades, e semi-personalidades que começavam naquela época permite uma boa idéia de como seria viver na cidade se você fosse um jovem sem grana, sem fama e querendo se divertir.

The Joe Strummer Story não é perda de tempo, mas se for preciso escolher em qual gastar uma hora e meia, NY77 é mais documentário.

Para agradecer a essas pilhas de cultura que a gente compra e não consome, existe um bilhetinho.

Shine A Light

27 de junho de 2010 às 23:18

Eu me contentaria em simplesmente ter feito a foto, não precisaria nem conversar com os cinco…

As vezes é bom demorar um pouco para fazer certas coisas como, por exemplo, assistir Shine a Light. Além de conseguir uma cópia original por R$ 7,99 em um dos saldões da Blockbuster, permite receber o filme com distância dos textos da crítica.

Os textos – ao menos os que eu me lembro de ter lido – não foram muito generosos com Shine a Light e, dois anos depois da sua premiere, fica mais fácil colocar as percepções alheias de lado e assistir o documentário musical (mais preciso seria chamá-lo de musical semi-documental) aberto a suas próprias percepções.

Claro que os críticos não precisavam se render automaticamente ao filme pelo simples fato de ser dirigido por Martin Scorsese, nem por tratar-se dos Rolling Stones (que tem a sua parcela de culpa por já terem lançados caça-níqueis em diversas mídias ao longo de tantos anos de carreira), mas não consigo – com esse distanciamento – me lembrar o que teria desagradado tanto os críticos.

O filme não é nenhuma obra genial, não inova na linguagem dos documentários nem dos shows em DVD mas, ao retratar uma carreira tão longa e com tantos momentos desiguais em poucos recortes de entrevistas das últimas décadas, Scorsese consegue direcionar seu perfeccionismo para o que realmente deveria ser gravado para a obra: um concerto de duas horas mostrando uma banda que chegou mais longe do que o corpo de cada um de seus quatro integrantes poderia sugerir.

Faltam certas músicas – e todas as pessoas dignas de atenção no planeta tem alguma música preferida dos Stones, assim como tem alguma preferida dos Beatles – e sobram cortes de câmeras, mas nenhum desses pontos desmerece a obra.

Como pontos altos da apresentação, é impossível não reparar em dois momentos inversos e complementares: a reverência de Jack White aos quatro Stones em Loving Cup, (do atualmente cultuado Exile on Main St.) e o cover de Champagne & Reefer com Buddy Guy, e nesse momento quem reverencia o bluesman são os Stones.

Ainda sobra qualidade para Sympathy For The Devil – que é boa até quando tocada em MIDI – e as duas interpretações de Keith Richards; até a participação de Cristina Aguilera -  que tem uma voz fantástica, mas não aproveita para o que deveria – aparece correta dentro da obra.

Conclusão? Vale a compra, vale as duas horas de áudio bem gravado, vale bem mais do que os R$ 7,99.

Ano 135

5 de janeiro de 2010 às 14:52

http://tv.estadao.com.br/app/estadao/tvestadao/player/player.swf

135 anos, apesar das cambadas que teimam em tentar censurar.

Parabéns então.

A estupidez humanda em 90 minutos

22 de dezembro de 2009 às 18:53

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos cépticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol numa órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. No entanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todos os domingos e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer na sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o céptico às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.

Bertrand Russell, filósofo, pensador, liberal e vencedor do Prêmio Nobel em 1950.

O GNT passou (finalmente) a mini-série/documentário “A Fé Cega” (The Root Of All Evil, 2006) em que Richard Dawkins passa uma hora e meia dando mais e mais motivos para que este humilde Cidadão Entretido mantenha-se agnóstico até o último fio de cabelo.

Impressiona ver a ignorância do discurso árabe, impressiona ver como os americanos em grande parte abriram mão de usar seus cérebros, impressiona ver o discurso ensaiado e que não admite desvios dos católicos na tal Terra Santa.

Não dá prá pensar mesmo que o mundo tenha alguma salvação.

Ninguém abre mão de seus discursos arqueológicos empoeirados sobre um livro cheio de razões e que não admite ser discutido.

Niguém abre mão de seus dogmas toscos baseados em superstições tacanhas e crenças místicas disfarçadas de leis celestiais.

Niguém abre mão de um pedaço inútil de deserto prá acabar com a guerra e ainda mata compulsivamente em nome de um deus qualquer que de nada serve na vida deles.

Niguém sequer se dá ao trabalho de ouvir os argumentos alheios e refletir.

E depois de tanta estupidez, tanta violência, tanta ignorância, por algum motivo, acham que merece o céu. Ou o paraíso. Ou o qualquer bobagem que um “mentor espiritualmente elevado” da seita tenha criado.

O texto que encerra a primeira parte do documentário é (mais ou menos) esse que abre este post. E aposto que nem ele faz sentido nas mentes reduzidas dos extremistas religiosos.

Prá essas pessoas, só um consolo: O unicórnio rosa invisível.

Amém.

O fim do mundo vai ser… patrocinado

15 de novembro de 2009 às 18:32

Se você quiser passar umas horas sem pensar muito, pode acabar indo parar na HBO ou em algum Telecine.

Se você quer pensar, mesmo que seja em algo banal como a possibilidade de explodir uma moto com TNT caseira, escolhe o Discovery.

Certo?

Não, aparentemente não é por aí. Ou então é mais ou menos por aí, mas o que você vai “aprender” no Discovery talvez não tenha muita relação com algum tema de relevância no momento ou com algo escolhido por algum conselho curador ou algum editor mais graduado dentro do organograma da empresa.

O que você vai ver é escolhido pela Sony Pictures.

Novembro de 2009, vinte anos da queda do Muro de Berlim.

Novembro de 2009, vinte anos das primeiras eleições diretas para presidente no Brasil desde o fim do regime militar.

Novembro de 2009, cem anos da fundação da base norte-americana de Pearl Harbor no Japão.

Além dessas datas mais óbvias, em 2009 temos 200 anos de nascimento de Charles Darwin, 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe, fazem 50 anos que inventaram os chips.

Mas aparentemente tudo isso é menos importante para o Discovery Channel do que a bobagem à la Nostradamus do fim de mundo em 2012.

Porque fazer um programa sobre isso? A resposta é fácil. Vem aí um gigantesco blockbuster da Sony Pictures sobre o tema.

Pior é não tentar nem disfarçar. Já que o canal é pretensamente educativo, poderiam ao menos utilizarem imagens de uma meia dúzia de filmes de catástrofe e conseguiriam disfarçar minimamente a inteção de levar público aos cinemas.

Acredite, existem centenas de filmes bons e ruins, com orçamentos ínfimos ou enormes, dedicados ao cinema-catástrofe. Adoro cinema-catástrofe. Inferno na Torre, Aeroporto 77, O Dia Depois De Amanhã, Terremoto, Impacto Profundo. Adoro.

Mas escolheram mesmo é usar cenas e mais cenas de 2012, todas devidamente creditadas, para ilustrar passagens do programa. Para tornar a situação ainda mais deprimente, as cenas não tinham a menor relação com o que os entrevistados estavam dizendo, apenas mostravam a exuberância dos efeitos especiais que o cinema pode criar.

Talvez você não sinta que isso é errado. Ou não se incomode com essa quase ingerência.

Mas você gostaria de ver a Globo pautando as matérias do caderno de Economia do jornal que você lê para promover uma novela?

Ou então a Record enchendo de “matérias” rurais as revistas semanais para promover o seu tosco reality show?

Quem sabe a Unilever manipular uma série de documentários na televisão para provar que cada um de seus produtos é o mais saudável, mais gostoso, mais bonito?

Ninguém vai se incomodar com isso? Não, eu sei que não. Talvez mais uns dez tenham ficado indignados. E uns trezentos devem ter achado genial, futuro das mídias, branded content, cross media.

Cross media my ass. Cada vez a gente se vende mais por menos, aceita mais e mais o que é imposto, não discute, não reflete, não questiona. E isso só acontece porque não nos damos ao simples trabalho de criar repertório, massa crítica na cabeça para sentirmos algum incomodo com isso.

Nosso destino é sim muito triste. Não porque o mundo vai acabar com algum evento cataclísmico inesperado, mas porque nós estamos buscando isso com toda a nossa ignorância e crescente indiferença ao que nos é imposto.