Dawkins e o “design inteligente”

Uma longa citação alheia, só porque faz tempo que isso não ocorre por aqui e porque eu ainda estou – sim, o livro é trabalhoso – lendo essa obra:

“Ainda há muito trabalho a fazer, é claro, e tenho certeza de que ele será feito.

Esse trabalho jamais seria feito se os cientistas ficassem satisfeitos com um padräo preguiçoso como o estimulado pela “teoria do design inteligente”. Esta é a mensagem que um “teórico” imaginário do design inteligente poderia transmitir aos cientistas:

“Se vocês não entendem como uma coisa funciona, não tem problema: simplesmente desistam e digam que Deus a criou.

Vocês não sabem como o impulso nervoso funciona? Tudo bem! Não entendem como as lembranças säo depositadas no cérebro? Excelente! A fotossíntese é um processo desconcertantemente complexo? Maravilha! Por favor não saiam trabalhando em cima do problema, apenas desistam e apelem a Deus.

Caro cientista, não estude seus mistérios. Traga seus misterios a nós, pois podemos usá-los. Não desperdice a ignorância preciosa pesquisando por ai. Precisamos dessas gloriosas lacunas para o último refúgio de Deus”.

Santo Agostinho disse de forma bem clara: “Existe outra forma de tentaçäo, ainda mais cheia de perigo. É a doença da curiosidade. É ela que nos leva a tentar descobrir os segredos da natureza, segredos que estão além de nossa compreensäo, que nada nos podem dar e que nenhum homem deveria querer descobrir” (citado em Freeman, 2002).”

Richard Dawkins, em Deus, Um delírio.

Pois é. Essa coisa de educação, cultura, raciocínio independente… Isso é um perigo.

Ou, como resume muito bem uma daquelas imagens (citando o próprio Dawkins, lógico) que aparecem pela rede e o tumblr faz o favor de nos apresentar:

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Família tradicional?

“O papa Bento 16 disse nesta segunda-feira, 9, que o casamento homossexual é uma das várias ameaças atuais à família tradicional, pondo em xeque “o próprio futuro da humanidade”.”

Ah, então o casamento homossexual ameaça o futuro da humanidade?

Bom, se por futuro da humanidade ele quer dizer o futuro das mordomias proporcionadas pela humanidade aos ilustres representantes de uma instituição de mentalidade defasada, torpe e tacanha, faz sentido.

Se for esse o caso, o casamento homossexual é o menor dos problemas.

É melhor vocês, papas, bispos, padres e assemelhados, se preocuparem mais em evitar que as pessoas estudem que terão mais sorte em manter esse tão necessário status quo.

Quem sabe até queimar uns livros, não? Afinal de contas, experiência nisso vocês tem de sobra.

Mas evitem reviver as cruzadas. Esse negócio de tortura caiu um pouco em desuso mesmo entre os tiranos do oriente médio.

George Carlin, sempre.

“There are 200 countries in the world now.

Do these people honestly think that God is sitting around picking out his favorites?

Why would he do that? Why would God have a favorite country?

And why would it be America out of all the countries? Because you have the most money? Because he likes our National Anthem?

Maybe it’s because he heard we have 18 delicious flavors of Classic Rice-A-Roni! It’s delusional thinking!

And America is not alone with this sort of delusions. Military cemeteries around the world are packed with brainwashed dead soldiers who were convinced God was on their side. America prays for God to destroy our enemies. Our enemies pray for God to destroy us. Somebody’s gonna be disappointed. Somebody’s wasting their fucking time.

Could it be everyone?”

Hail.

“Lamento dizer que a relação da SS com a Igreja Católica é algo que a igreja ainda precisa enfrentar.

Se você está escrevendo sobre a história dos anos 1930 e a ascensão do totalitarismo, pode, se quiser, tirar a palavra “fascista” em relação à Itália, Portugal, Espanha, Tchecoslováquia e Áustria e substituí-la por “partido católico de extrema direita”.

Quase todos os regimes foram instalados com a ajuda do Vaticano. Isso não é negado. Em muitos casos os entendimentos com a Santa Sé persistiram após o fim da Segunda Guerra e se estenderam a regimes comparáveis na Argentina e outros países.”

Christopher Hitchens, entrevistado por Richard Dawkins, para a New Statesman.
Texto na íntegra na Ilustrada de 31/12/2011, só para assinantes. Ou aqui.

Fidelização? Milhas de vantagem nas igrejas…

“Essa dificuldade de “fidelizar um fiel”, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

[…]

Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo.”

Eliane Brum, A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico, na Época.

Christopher Hitchens

Ele escreveu um bocado de livros, ele tinha citações espetaculares sobre os temas mais interessantes, ele era notívago, ele – isso é dedução minha – era alcoólatra, ele era boêmio, ele destruía neurônios com seu estilo de vida e, ainda assim, era mais racional, preciso e direto do que eu, você e 70% da população da terra somos ou seremos.

E uma frase curta, direta, precisa – dita por ele, mas pelo que consegui achar, não é uma frase original dele -, diz mais e resume o que era o pensamento de Christopher Hitchens do que muitos textos que apareceram hoje.

“That which can be asserted without evidence, can be dismissed without evidence.” 

E ele morreu.